22 jul Você pensa com a própria cabeça? Tem certeza?
O problema não é a ignorância: é o conforto que ela oferece. Refletir dá trabalho. Questionar dói. Sustentar ideias divergentes exige musculatura simbólica. E a maioria da espécie humana não quer nada disso. Quer pertencer, repetir, e se sentir especial enquanto obedece sem perceber. E ainda tem a audácia de afirmar com o peito inflado de orgulho que é livre. Claro que há exceções. Sempre há. Mas a exceção não define a espécie.
Sim, existem barreiras cognitivas, sociais e educacionais que limitam o desenvolvimento do pensamento crítico. Forças extraordinárias operam — de forma sutil e contínua — para nos manter conformados ao grupo. E nem todo mundo tem o luxo de tempo, silêncio ou repertório para refletir. Porque foi moído por um sistema que deseduca, que humilha, que cansa. Mas esse texto não é sobre eles. É sobre os que poderiam — e não fazem. Não raciocinam porque não querem. Por ignorância, talvez. Por covardia inconsciente, quase sempre. Elas querem conforto simbólico. Confirmação emocional. E pertencimento narrativo.
O teatro da opinião espontânea
Vivemos numa era em que opinar virou sinônimo de autonomia. Somos ilhas de silêncio cercadas por vozes estridentes — todas competindo por autenticidade. Todo mundo diz o que pensa, o tempo todo, sobre tudo. Muitos acreditam que são autores das próprias ideias, que chegaram a elas por raciocínio autônomo. Pobres criaturas. Não sabem que estão apenas encenando o teatro da opinião espontânea.
Quase ninguém chega a lugar algum sem mudanças. A maioria tem o pensamento circular. Está numa bicicleta ergométrica. Simula avanço intelectual sem produzir movimento real. Refletir não é apenas fazer frases transitarem pelo cérebro. É organizar fluxos lógicos. É avaliar, destruir, reconstruir, duvidar, errar, sustentar — e, às vezes, calar.
O pensamento crítico exige atrito. Exige coragem para contrariar até a própria biografia. E a maioria das pessoas não quer isso.
O filósofo britânico John Stuart Mill já dizia no século XIX: “A maioria das pessoas vive com opiniões herdadas, sem jamais examiná-las.” Hoje, essa herança virou espetáculo. A ignorância ganhou palco. E os atores são marionetes com autoengano.
A plasticidade do cérebro é uma benção — e uma tragédia
O cérebro é plástico. Ele pode aprender, evoluir, criar, expandir. Mas ele também pode — e costuma — se adaptar à estupidez confortável com a mesma eficiência. Como aponta Norman Doidge, “O cérebro muda com o uso. O problema é: quem está usando o seu?”
A mente humana é uma máquina de economia. E raciocinar gasta energia. Então ela se especializa em terceirizar esse processo: adota verdades prontas, crenças de rebanho, slogans com perfume barato de lucidez. O indivíduo pode até acreditar que tem pensamento crítico. Mas se nunca desconstruiu suas convicções em silêncio, sem plateia, ele só estará reproduzindo o que alguém pensou por ele — ou fingiu que pensou.
Sabotar a própria inteligência é fácil . Basta inundar o cérebro com distrações, narrativas fáceis e validação emocional em tempo real. O cérebro, grato por não ter que pensar, aceita. E bate palma.
No entanto, foi justamente a capacidade de raciocinar que nos descolou do restante do reino animal. A habilidade única de interrogar nossas emoções, nossos sentidos e até nossa própria existência, cutucando com vara curta este vespeiro alojado no córtex pré-frontal.
O zoológico performático das redes
O problema não é que todo mundo tenha voz. O problema é que a maioria não tem filtro, conhecimento nem critério para tanto. Cada post é uma convulsão emocional travestida de opinião. Cada vídeo é uma repetição embalada com música trendy. Cada criador de conteúdo é um repetidor com verniz, fingindo originalidade.
Refletir não é meditar. Não é ter insights não induzidos. É engenharia mental: um espaço mínimo de silêncio onde você pode perguntar, sem plateia: “Isso é meu ou é um eco?”
E falando em eco, o Umberto já disse com muita sabedoria: “As redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho e não causavam nenhum mal para a coletividade. Nós os fazíamos calar imediatamente, enquanto hoje eles têm o mesmo direito de palavra do que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis”. O que Eco chama de “invasão dos imbecis” é apenas o sintoma: o real problema é que não há mais vergonha simbólica. Antigamente, a ignorância era silenciosa. Agora, ela dança. Quando todo mundo pode dizer qualquer coisa, o silêncio crítico é o único sinal de inteligência.
Nelson Rodrigues antecipou Eco com sua célebre frase: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.”
Fanatismo, bolhas e supermercado conceitual
Somos uma espécie gregária. Por razões evolucionistas, nosso cérebro precisa de grupo. Mas o que era proteção coletiva virou colapso epistêmico: hoje os grupos validam qualquer ideia — desde que ela confirme as crenças pré-instaladas.
Nada encoraja mais um energúmeno a vomitar estultices do que a presença entusiasmada de outros energúmenos que pensam exatamente como ele.
É por isso que os fanatismos proliferam. As seitas políticas, as tribos conspiratórias, os microcultos de celebridade, os coaches messiânicos. Eles oferecem a única coisa que o cérebro mal estruturado deseja mais do que a verdade: o alívio de não ter que pensar sozinho. De poder ir num supermercado conceitual e comprar verdades prontas para consumo. Como disse Walter Lippmann: “Onde todos pensam igual, ninguém está pensando muito.”
A idiotização é um projeto, não uma falha
Mas nem tudo é culpa dessas tristes mentes compradoras de verdades. A formação de idiotas tem método. O sistema educacional no mundo inteiro, com raras exceções, foi desenhado para não produzir pensadores críticos. Eles dão muito trabalho, ameaçam as estruturas estabelecidas e propõem mudanças — deus-me-livre. A intenção é apenas cercar uma área com arame farpado, plantar capim e colocar todo mundo dentro. Produzir mentecaptos é muito mais eficiente e barato. Papagaios retóricos são trabalhadores mais eficientes. E menos críticos. Há que diga que o objetivo da educação pública é destruir o pensamento independente. Certo ou errado, não há como negar: quem controla o currículo escolar, controla o mundo.
Segundo David Foster Wallace: “A verdadeira liberdade envolve atenção, consciência, disciplina e esforço — e a capacidade de se importar.” Coisas que o sistema ensina você a evitar.
Enquanto você acredita que escolhe o que consome, alguém já preparou o cardápio. Enquanto você repete uma frase de efeito, alguém já faturou com sua convicção vazia. Enquanto você compartilha indignação, o tabuleiro já foi redesenhado.
A necessidade de grupo é o Cavalo de Tróia da manipulação simbólica
As pessoas não querem estar certas. Querem estar dentro. Querem ser aplaudidas — mesmo que não entendam por quê. Por isso aderem a ideias que não entendem, defendem discursos que não estudaram, militam por causas que não sabem explicar. A necessidade de pertencimento emocional — e de aprovação instantânea — é mãe das teorias de terra plana, dos cultos de autoajuda quântica, dos negacionismos científicos, das narrativas de guru corporativo. Todas têm algo em comum: não precisam fazer sentido. Só precisam acariciar cérebros preguiçosos.
O medo de ser excluído — ou cancelado — conduz uma covarde estratégia mental: agradar o máximo de pessoas possível, pensando o mínimo. Queremos ser aceitos. Vários estudos comprovam esta curiosa faceta humana, como o famoso teste de Solomon Asch que o levou à seguinte conclusão: — “A tendência ao conformismo em nossa sociedade é tão forte que jovens razoavelmente inteligentes e bem-intencionados estão dispostos a chamar o branco de preto. Isso é preocupante. Levanta questões sobre nossos métodos de educação e sobre os valores que norteiam nossa conduta.”
Criatividade, pensamento livre e o medo de perturbar
Criatividade também pressupõe reiterado conflito interno. Pensamentos divergentes. Inconformismo disciplinado. Atrito interno. Não há espaço para isso num cérebro ocupado demais tentando não ser rejeitado. Porque a ideia criativa incomoda. Perturba. Questiona. Derruba conforto, desafia consenso, expulsa os mansos da zona segura. É uma ameaça que pode, um dia, derrubar a cerca de arame farpado. Não vai, já sabemos. Mas esse é um risco que a maioria não tem colhão para enfrentar.
Pensar 7 minutos — metacognição como ato de rebeldia
Nem vou perder meu tempo e o seu dizendo que é preciso se informar, estudar, buscar pontos e contrapontos — isso já deveria ser óbvio até para quem acredita em líderes messiânicos. A questão é o que fazer com esse monte de informações.
Minha sugestão para um primeiro passo de uma longa jornada, que serve tanto para criatividade quanto para sobreviver intelectualmente, chama-se Pensar 7 Minutos. Ao invés de embarcar em qualquer onda que pareça atraente e agradável para sua visão de mundo, pare e reflita durante 7 minutos ininterruptos se o que está sendo proposto é de fato aceitável. Se faz sentido. Se é lógico. Pra você. Não para o mundo. Não para o seu vizinho. Não para o resto da humanidade. Pra você.
E para que estes preciosos minutos de sua vida sejam utilizados da melhor forma, inclua neste intervalo de tempo, opiniões contrárias. Faça perguntas desconfortáveis e responda honestamente. Sem viés. Sem autopiedade. Sem mimimi. Sem adesivo ideológico colado na testa. Seja adulto e pare de se agarrar a crenças como uma criança se agarra ao seu ursinho de estimação. Você é de esquerda, é de direita, foda-se. O importante é saber o que ecoa sinceramente em sua alma. O que representa sua essência.
Pensar 7 Minutos é metacognição aplicada — ou seja, a consciência e a compreensão dos próprios processos de pensamento e aprendizagem. É a capacidade de monitorar, avaliar e regular esses processos para atingir objetivos específicos. É “pensar sobre o pensar” e “aprender a aprender”.
É claro que este tempo mínimo não é suficiente para se formar uma opinião consolidada sobre nada que seja relevante. Uma mente que se pretende mais ou menos independente e crítica, necessita de anos de treinamento no exercício da reflexão e da honestidade intelectual. Entretanto, Pensar 7 Minutos tem a função de servir como gatilho. É o primeiro passo. Um empurrão cognitivo para quem não está acostumado a pensar com a própria cabeça e precisa pegar no tranco. Uma pequena corrida inicial para quem pretende um dia participar de uma maratona.
Pensar 7 Minutos não garante transformar um pateta em um Einstein de proveta. Mas pode evitar que o desavisado viralize a própria estupidez. É um ato de desaceleração simbólica para adquirir e/ou recuperar o critério interno. 420 segundos de resistência mental contra a avalanche de ideias sem-teto que tentam invadir sua mente como um prédio abandonado.
A propósito, nem tudo o que o Einstein disse é a prova de críticas. Por isso não se deve, por princípio, acreditar cegamente em ninguém. Só porque alguém que você admira diz alguma coisa, não quer dizer que você tem que apertar o nariz, fechar os olhos e engolir a seco.
Refletir (e criar) é necessariamente subversivo
Acredite: você não é especial. Ninguém é. A diferença é que alguns conseguem juntar lé com cré, enquanto tantos outros vociferam pós-verdades criadas com obscuras intenções ou por pura ausência de qualquer critério mental operante.
Não pensar com a própria cabeça não é mais burrice. É cumplicidade. A pessoa poderia desenvolver o pensamento crítico. Mas prefere se sentir incluída. Poderia criar. Mas prefere repetir com pose. Poderia romper. Mas se curva — com orgulho besta. E, nesse pacto silencioso com a mediocridade, ela vira massa — orgulhosa de sua prisão customizada. Do cercadinho de arame farpado que seu cérebro chama de lar.
Raciocinar é um ato antissocial. Criar é uma forma de deserção. E talvez por isso a maioria nunca tente. E quando tenta, o faz rápido demais. Sem silêncio. Sem risco. Sem 7 minutos.
Aí você, ofendido, me pergunta:
— Quem você pensa que é para chamar os outros de idiotas?
Bem, minha resposta é simples:
— Sou só mais um entre tantos idiotas espalhados pelo mundo. Apenas não me conformo com a minha idiotice incontornável. E não há como escapar. Muitas das ideias que apresentei aqui provavelmente foram compradas apenas pela embalagem. Se eu fosse você, começava a pensar 7 minutos antes de concordar com qualquer coisa que eu disse.