14 jan Um jeito (quase) simples de diminuir o bloqueio criativo
Já existe um consenso de que todo mundo é criativo, mas, apesar disso, não são todos que sabem – ou querem – se utilizar deste extraordinário diferencial evolutivo. Isso é compreensível porque o processo criativo é como muitas estradas brasileiras: um terreno acidentado, sem sinalização e cheio de armadilhas. Uma das maiores dificuldades que enfrentamos é o bloqueio criativo, que, na maioria das vezes, é causado por um medo primordial: o medo de sermos julgados. Esse temor não é uma falha individual, não é um defeito, mas um traço profundamente enraizado em nosso código genético. Afinal, viver em grupo nos obriga a nos preocupar com a opinião alheia para garantir a aceitação social e, por extensão, a sobrevivência.
A necessidade genética de viver em grupo
Desde os primórdios da humanidade, nossa sobrevivência esteve intimamente ligada à vida em grupo. Isolados, nossos ancestrais estariam mais vulneráveis a predadores, fome e outras ameaças. Essa dependência grupal moldou nossos cérebros para priorizar a aceitação social acima de quase tudo. O medo de ser rejeitado ou excluído se tornou uma questão de vida ou morte, literalmente, e isso ainda ressoa em nossos comportamentos modernos.
Mais do que uma adaptação evolutiva, essa necessidade de pertencer impacta profundamente nosso comportamento. Mesmo em situações onde a sobrevivência física não está em risco, o medo de discordar dos outros, ou pior, de ser excluído pode gerar ansiedade, inibição e, em última análise, bloquear a criatividade.
O bloqueio criativo e questões psicológicas
Esse medo de julgamento provoca, obviamente, questões psicológicas subjacentes. Se precisamos inexoravelmente estar harmonizados com nossos grupos sociais, qualquer mudança em nosso comportamento ou pensamento pode ser uma sentença de defenestração sumária. Uma frase atribuída à Freud, mas que não é encontrada em nenhum de seus estudos, afirma que “As pessoas só mudam quando a dor que sentem é maior do que o medo de mudar.” Pode não ser do Sig, mas faz todo o sentido e explica bem essa nossa dificuldade atávica.
Porém, no sentido inverso, o processo criativo exige que nos afastemos do conforto, que exploremos o desconhecido, que, portanto, desafiemos os dogmas impostos por nossos grupos sociais. Nosso inconsciente, moldado pela evolução, pela genética, e reforçado por experiências sociais, frequentemente tenta vigorosamente nos puxar de volta para o conhecido, o seguro, para o colo de nossos pares.
Nosso cérebro busca conforto, muitas vezes confundindo-o com bem-estar. Se observarmos com atenção, fica evidente que as pessoas não querem estar certas; querem estar confortáveis. Mesmo apresentadas ao contraditório com argumentos sólidos e provas irrefutáveis, a reação em geral é de descrença e, não raro, violência contra o mensageiro. Concordar com o grupo social proporciona esse conforto ilusório, mas interfere diretamente em nossa liberdade para ousar. Para ser criativo, é preciso resistir à tentação de buscar apenas o que é aceito ou esperado. É sair da bolha e correr riscos. Quem se habilita?
Você tem medo de quê?
Só para reforçar, é importante ficar claro que o medo é uma ferramenta de sobrevivência. É uma emoção e, portanto, incontrolável. Pertence ao nosso sistema automático de defesa. Não escolhemos ter medo ou não. Ele simplesmente se manifesta quando nosso inconsciente sente necessidade de nos alertar diante de um suposto perigo. Aprender a lidar com ele é o que nos resta, em geral o enfrentando de forma consistente e frequente, como prega o Behaviorismo.
Disruptofobia na ordem do dia
Temos medo de muitas coisas, mas no cerne do bloqueio criativo está um fenômeno que chamo de disruptofobia; o medo de desafiar o status quo, de criar algo que pode ser percebido como diferente ou novo. Esse medo está profundamente conectado à nossa necessidade de aceitação social e ao conforto psicológico que sentimos ao seguir padrões já estabelecidos, como já citado acima. A disruptofobia, portanto, funciona como uma barreira interna que nos impede de explorar nosso potencial criativo ao máximo.
Até hoje, consegui identificar 4 tipos de disruptofobia
1. Disruptofobia Social (Medo do julgamento alheio) – Este medo surge da preocupação com o que os outros pensarão de nossas ideias. Nós tememos ser excluídos ou rejeitados por nossos grupos sociais se formos vistos como diferentes ou desafiadores das normas estabelecidas. Isso pode levar à autocensura, onde destruímos ideias promissoras antes mesmo de compartilhá-las, mesmo sem termos absolutamente nenhuma evidência de que elas seriam ou não rejeitadas.
2. Disruptofobia Narcisista (Medo de decepcionarmo-nos com nós mesmos) – Esse medo está relacionado às nossas expectativas pessoais. Nós evitamos desafiar nossas próprias habilidades porque não queremos lidar com a possibilidade de falhar ou de não estar à altura de nossos padrões de qualidade. É o tipo de disruptofobia que faz com que o processo criativo seja anulado pelo medo do autoconhecimento.
3. Disruptofobia Woke (Medo de ofender crenças) – Esse medo envolve o receio de que nossas ideias possam ofender alguma crença: nossa ou de outros. Para o inconsciente, preservar padrões e crenças é fundamental para manter a integridade psicológica, o que torna profundamente desconfortável qualquer ideia que desafie essas estruturas. Este tipo de disruptofobia está associada ao politicamente correto, uma forte onda moralista atual. O medo de ser cancelado nas redes sociais mina a ousadia e a subversão, elementos fundamentais para o processo criativo.
4. Disruptofobia Primitiva (Medo do novo) – Desde tempos imemoriais, o desconhecido provoca desconforto. Toda nova informação ou ideia que desafia o que já conhecemos pode ser vista como uma ameaça. Esse medo está enraizado em nossa evolução, onde o novo frequentemente representava perigo à nossa integridade. Mas o que é criatividade se não a celebração do novo?
Um mestre dos disfarces
Como nosso inconsciente é ardiloso e astuto, a disruptofobia raramente se manifesta de maneira explícita. Em vez disso, se disfarça de várias formas sutis. Sentimentos escamoteados que fazem com que o medo de criar se manifeste sem que percebamos diretamente. Sim, nenhum destes comportamentos são desculpas criadas conscientemente. Sentimos de fato seus efeitos.
– Preguiça: “Eu sei que eu tinha que fazer. Mas é mais forte que eu”.
– Procrastinação: “Depois eu faço. Tem muito tempo ainda”.
– Sono excessivo em horários incomuns: “Foi só sentar no computador que me deu um sono…”.
– Esquecimento: “Nossa, esqueci completamente!”.
– Desistência imediata: “Não sou capaz de fazer este trabalho, por isso nem vou começar”.
– Invalidação do próprio trabalho: “Ficou uma merda, não vou nem apresentar”.
– Falta de tempo: “Trabalho muito. Não tenho tempo para criar”.
– Perfeccionismo?
Perfeccionismo é um comportamento condenável?
Muitos consideram o perfeccionismo um defeito porque ele é frequentemente associado ao bloqueio criativo. Mas a verdade é que existem 3 tipos diferentes de perfeccionismo, que na verdade são 2: o operante, o submisso e o falso.
O perfeccionismo operante é uma qualidade essencial para o bom criativo, pois o empurra a buscar o aprimoramento constante. Se você não presta atenção nos detalhes mais ínfimos de suas ideias, você está apenas nadando na superfície. Os maiores criativos são, sem exceção, obsessivos, exigentes, intransigentes, detalhistas, ou seja, perfeccionistas operantes. Essa é a única maneira de você conseguir, mesmo que minimamente, enfrentar aquela resistência natural de nosso cérebro em relação à originalidade. Se mesmo assim já é difícil ter grandes ideias, sem estas características radicais, seremos apenas reprodutores de clichê.
Já o perfeccionismo submisso é quando a busca por qualidade ao invés de nos impulsionar, nos amedronta e paralisa. Em geral, o encontramos naquelas pessoas que têm um padrão de qualidade elevado, mas que o compromisso em atingi-lo as paralisa, ou seja, disruptofobia narcisista clássica.
Este bloqueio é resultado de uma incompreensão do mecanismo cerebral acionado no processo criativo. Se você entender o que acontece na sua cabeça quando diante de um desafio criativo, conhecer as ferramentas corretas para utilizar em cada passo do processo, aprender a administrar seu ego e – fundamental – desenvolver uma casca grossa para enfrentar o persistente desconforto psicológico inerente ao processo, você terá grandes chances de se tornar um perfeccionista operante. E a boa notícia é que todas estas qualidades podem ser aprendidas e treinadas.
Já no caso do falso perfeccionista, o nome é autoexplicativo. É aquele que se diz perfeccionista mas que na verdade jamais dará um passo sequer na busca por qualidade. Até porque não está nem aí para a diferença entre um trabalho de alta qualidade e um medíocre, usando a palavra perfeccionismo apenas como desculpa para a sua total falta de interesse em se educar e se desafiar.
As últimas Coca-Colas do deserto
O ego, em termos simples, é a forma como nos percebemos e nos apresentamos ao mundo. Ele tem um papel fundamental no processo criativo, tanto como propulsor quanto como bloqueador. Não à toa, está diretamente associado ao perfeccionismo.
Um ego inflado não é necessariamente um problema. Quando bem canalizado, o desejo de impressionar e de proteger nossa imagem pública pode ser um motor poderoso para a criatividade. O egocêntrico inteligente utiliza essa preocupação extrema com sua reputação para se desafiar constantemente e superar seus limites, provando, para si mesmo e para os outros, que é, de fato, um gênio da raça. Os gênios são todos perfeccionistas operantes.
Não estou dizendo que todo gênio é egocêntrico, apenas esclarecendo a influência da autoimagem no resultado do trabalho criativo. Isso significa que você pode ter um ego gigante, desde que suas ideias também sejam. O importante é manter foco absoluto nas ideias.
No entanto, o ego aumentado também pode ser um traidor do movimento. Ser apenas egocêntrico e não utilizar essa energia para o próprio aprimoramento é triste de se observar. As pessoas costumam relevar o comportamento do egocêntrico que realmente entrega ideias de alto nível, até porque ele geralmente disfarça bem e se mostra muitas vezes humilde.
Já o pequeno egocêntrico, aquele que se acha um gênio sem ter um trabalho que corrobore tamanho devaneio, não faz questão de esconder o que acha de si mesmo, e por isso é sempre considerado pela maioria como um idiota, com toda justiça. É o autêntico falso perfeccionista, e ainda por cima com mania de grandeza.
Já aquele que tem o ego equilibrado tende a buscar qualidade mas não é um xiita. Pode realizar trabalhos extremamente criativos, mas não busca a perfeição. Claro, se ele tem o ego equilibrado provavelmente não é uma pessoa obsessiva, não se angustia com facilidade e entende os eventuais fracassos. Seu sarrafo é um pouco mais baixo do que o egocêntrico inteligente, e por causa disso tenho a sensação de que ele é mais feliz (uma opinião absolutamente empírica e destituída de comprovação científica).
Preciso lembrar que para todos os casos existem exceções? Acho que não.
O antídoto
A chave para superar a disruptofobia e o perfeccionismo submisso, ou seja, o bloqueio criativo, é simples, mas poderosa: ter compromisso absoluto com as ideias, não consigo mesmo. Isso significa deixar de lado a preocupação com a própria imagem — seja perante os outros ou a si mesmo — e focar toda a sua energia na construção e desenvolvimento das ideias.
Criação não é sobre o criador, mas sobre a criatura. Quando colocamos as ideias no centro do palco, encontramos a liberdade para explorá-las de forma mais livre e audaciosa, diminuindo o medo de julgamentos ou fracassos. No processo criativo, as ideias são Deus. Somos apenas seus adoradores.
Se eu fosse você
Uma forma de fazer isso é nos colocar no lugar de outra pessoa. Por exemplo, “Se eu fosse o Walt Disney, como eu resolveria este problema?”. Parece bobagem, mas não é. A disruptofobia, por ser um medo eminentemente relacionado à nossa posição na sociedade, é reduzida quando incorporarmos outra pessoa. Aparentemente, nos sentimos mais livres e corajosos, já que “não somos nós” que estamos criando e sim “o Disney”, diminuindo a pressão psicológica inerente ao processo.
Você pode se colocar também no lugar de empresas, organizações e grupos sociais: “Como a Apple resolveria este problema?”, “Se este serviço fosse oferecido pela Igreja Católica, como seria?”, “Como a máfia faria para distribuir este produto?”, enfim, buscar, além de desconexão com seus bloqueios pessoais, uma infinidade de novas referências, novos universos de possibilidades e conceitos, incríveis despertadores criativos. A esses estímulos cerebrais externos dou o nome de indutores, já que induzem o cérebro a pensar em caminhos que jamais escolheria por conta própria.
Para ser um bom indutor é preciso estar conceitualmente distante do objeto da criação. Você pode até usar o indutor “Nestlé” para criar um chocolate novo, mas vai estar perdendo a chance de ser realmente original e disruptivo. Que tal usar “manicômio”? Não fica claro que vai ter muito mais caminhos para trilhar, independente de conseguir uma solução ou não? A regra é clara: quanto mais inusitados, diferentes e inesperados forem os indutores maiores serão as chances de mudar o jogo.
Vamos testar esta técnica?
Escreva nos comentários ideias de um novo chocolate baseado no indutor “manicômio”. A primeira ideia que me vem a cabeça é um chocolate num formato estranho, com ingredientes nunca utilizados num mesmo produto, uma embalagem inesperada, displays em pontos de venda inusitados, divulgação com pessoas estranhas mas divertidas e todos os textos (da embalagem à divulgação) dispostos de forma aparentemente caótica. O nome do chocolate seria, claro, “Muito Louco”.
Técnicas de desbloqueio criativo, no final das contas, são apenas truques baratos, subterfúgios, estratagemas para enganar nosso cérebro, minimizando os efeitos de sua resistência natural e vigorosa ao novo. O criativo é, antes de tudo, um enganador de cérebros. Mas e daí? O importante é que funciona.
Vida longa e criativa.