humor e credibilidade

Por que o humor é inimigo credibilidade?

No romance O Nome da Rosa, de Umberto Eco, um monge fanático mata sistematicamente qualquer pessoa que ouse rir dentro do mosteiro, envenenando as páginas de um livro pecaminosamente cômico. Para Jorge de Burgos, o decano da abadia – intelectual, cego e assassino em série – o riso é uma heresia que corrompe a alma humana. No livro, ele diz “O riso mata o medo, e sem medo não pode haver fé, porque sem medo do Diabo não há mais necessidade de Deus.” Para seu Jorge, o riso é uma regressão evolutiva, uma volta aos instintos primitivos que degrada a dignidade humana. “O riso é um capricho diabólico que deforma os traços do rosto e faz os homens parecerem macacos”, completa. É uma afirmação tão ridícula que dá vontade de rir.

Essas frases encapsulam perfeitamente o preconceito que ainda persiste: a ideia de que rir nos rebaixa, nos aproxima do animal, nos afasta da suposta nobreza da razão pura. Jorge via o humor como uma ameaça não apenas à fé, mas à própria hierarquia que separava o humano do bestial.

O irônico é que a ciência moderna prova exatamente o oposto: o humor é uma das características mais distintivamente humanas, uma sofisticação cognitiva que nos diferencia dos outros primatas. Somos a única espécie capaz de humor abstrato, de ironia, de sarcasmo. Se alguma coisa nos faz “parecer macacos”, é justamente a incapacidade de rir.

Jorge estava errado sobre quase tudo, mas especialmente sobre o fato de que não é o riso que nos animaliza. É a solenidade fanática, a incapacidade de questionar, a rigidez mental que nos reduz a autômatos. Os macacos não riem porque não conseguem. Nós rimos porque podemos. E essa capacidade deveria ser celebrada, não escondida.

Sete séculos depois, descobrimos que Jorge estava errado sobre zoologia, mas acertou em cheio sobre as corporações, universidades e ambientes “sérios” da vida moderna. O humor continua sendo tratado como um crime contra a solenidade intelectual, e quem ousa misturar gargalhadas com reflexão ainda é visto com a mesma desconfiança que o monge reservava aos livros de comédia.

Eu sinto isso na pele porque uso o humor de forma extensiva para falar de criatividade e comportamento humano, em palestras, treinamentos e aulas. As pessoas riem, porque é engraçado, mas a maioria não dá o devido crédito. A mensagem é passada de forma clara e explícita, mas se perde nas intrincadas concepções do que merece ser retido ou não pelo cérebro. Como se a seriedade fosse uma moeda que se desvaloriza na presença de uma gargalhada. Essa resistência não é acidental. Ela revela algo fundamental sobre como nossa sociedade hierarquiza o conhecimento: no topo, o solene; na base, o cômico. É uma classificação tão arbitrária quanto eficaz para manter as pessoas em seus devidos lugares.

O paradoxo da comunicação eficaz

Aqui está o primeiro paradoxo: pesquisas da Universidade de Stanford mostram que o humor aumenta a retenção de informações em até 20%. Estudos da American Physiological Society demonstram que o riso libera endorfinas, reduz cortisol e melhora a circulação sanguínea. A University of North Carolina comprovou que o humor ativa o córtex pré-frontal, responsável pela criatividade e tomada de decisões. Robert Provine descobriu que o riso ativa várias áreas do cérebro simultaneamente, incluindo regiões associadas ao pensamento criativo e à resolução de problemas. Do ponto de vista fisiológico, quando rimos, o cérebro libera neurotransmissores como endorfina, dopamina e serotonina, criando um coquetel químico que não apenas melhora o humor, mas otimiza o funcionamento cognitivo. O University of Maryland Medical Center demonstrou que o riso melhora a função dos vasos sanguíneos e aumenta o fluxo sanguíneo, contribuindo para a prevenção de doenças cardiovasculares.

Em outras palavras: o humor é, cientificamente, talvez não o melhor remédio, mas um dos bons. Além disso, é uma das ferramentas mais eficazes para transmitir conhecimento e otimizar o funcionamento cerebral. E, no entanto, continuamos a tratá-lo como inimigo da credibilidade. É como se tivéssemos descoberto que o exercício físico faz bem para a saúde, mas insistíssemos em considerar apenas a preguiça como sinal de respeitabilidade médica.

A verdade é que o humor é uma forma de inteligência aplicada. Para criar uma piada eficaz, você precisa identificar padrões, subvertê-los, surpreender o público e, ao mesmo tempo, fazer sentido dentro do contexto. É um exercício de criatividade em tempo real que exige as mesmas habilidades cognitivas necessárias para resolver problemas complexos. Não por acaso, muitos dos grandes gênios da história – de Leonardo da Vinci a Einstein – eram conhecidos por seu senso de humor afiado.

A propósito, não confio em pessoas que não têm senso de humor. Não é apenas uma preferência pessoal, é um diagnóstico comportamental. Alguém incapaz de rir de si mesmo, da vida ou das ironias da existência humana geralmente é alguém que precisa controlar demais a realidade para se sentir seguro. E quem precisa controlar demais a realidade tende a ser inflexível, autoritário e, paradoxalmente, mais propenso a tomar decisões ruins. O humor exige uma dose de humildade existencial que é incompatível com o fanatismo de qualquer tipo. Jorge de Burgos era um homem perigoso não apenas porque matava, mas porque era incapaz de rir.

A comédia como arte menor

Observe os prêmios culturais: comédias raramente ganham Oscars, músicas engraçadas nunca levam Grammys, e livros de humor são sistematicamente ignorados pelos críticos literários. Existe uma hierarquia tácita que coloca o drama acima da comédia, como se o sofrimento fosse inerentemente mais profundo que a alegria. A única exceção é a publicidade, que descobriu há décadas que o humor é a forma mais rápida de criar conexão emocional com o público. Mas note o contraste: na publicidade, o humor é aceito porque serve ao lucro. Na academia, na ciência, na educação, ele é rejeitado porque supostamente compromete a seriedade.

John Cleese, do Monty Python, subverteu esse preconceito magistralmente no funeral de Graham Chapman, seu colega de grupo. Em vez de um discurso solene, Cleese fez um elogio fúnebre hilário, chamando Chapman de aproveitador bastardo e encerrando com um “fuck off” dirigido ao morto. O público riu, chorou e, paradoxalmente, sentiu a profundidade do afeto que Cleese tinha pelo amigo. Foi um momento de humor subversivo que honrou a memória de Chapman de uma forma que nenhum discurso tradicional conseguiria. Cleese provou que o humor pode ser a forma mais sincera de lidar com a dor.

A vantagem evolutiva do riso

Do ponto de vista evolutivo, o humor é uma ferramenta de sobrevivência que vai muito além do entretenimento. Nossos ancestrais que conseguiam rir juntos formavam grupos mais coesos, cooperavam melhor e tinham maiores chances de sobreviver. O humor funcionava, e funciona até hoje, como uma válvula de escape para tensões sociais, um mecanismo de inclusão grupal e uma forma de processar traumas coletivos. Pesquisas recentes, como o estudo de G.E. Weisfeld e C. Cronin Weisfeld (2024), confirmam que o humor atende aos critérios de adaptação evolutiva, beneficiando tanto quem produz quanto quem recebe. Rir não é frivolidade; é programação básica de sobrevivência social.

Mas aqui está o segundo paradoxo: uma sociedade que evoluiu para valorizar o humor como ferramenta de coesão social agora o pune quando usado em contextos intelectuais. É como se tivéssemos desenvolvido uma alergia à nossa própria medicina evolutiva. Talvez isso explique por que ambientes que sistematicamente desencorajam o humor, sejam frequentemente tóxicos, rígidos e improdutivos. Eles estão lutando contra milhões de anos de programação evolutiva que nos ensinou que rir juntos é essencial para funcionar em grupo.

O bobo da corte e o escudo de proteção

Historicamente, apenas os bobos da corte tinham permissão para criticar o rei. Eles podiam dizer verdades incômodas desde que embrulhadas em risos. O humor funcionava como um escudo de proteção, permitindo subversão sem represálias diretas, permitindo questionar o status quo sem gerar confrontos e, talvez, decapitações.

E talvez seja exatamente essa ambiguidade que incomoda tanto. O humor é escorregadio, difícil de controlar, impossível de categorizar definitivamente. Ele não se enquadra nas gavetas organizadas do pensamento formal. Por isso mesmo, ele é uma ferramenta poderosa de desestabilização de verdades absolutas. O humor força as pessoas a questionar suas certezas, e isso sempre foi perigoso para quem depende dessas certezas para manter o poder.

Minha síndrome do comentarista automático

Preciso confessar que sou vítima da própria ferramenta que defendo. O humor virou um reflexo automático, uma resposta pavloviana a qualquer situação social. Fiquei chato pelo exagero, pela falta de sensibilidade da hora e do lugar em que o humor se mostra adequado. Foi meu filho, aos 10 anos, quem me confrontou com a pergunta devastadora: “Por que você sempre tem que fazer uma piadinha idiota?” Respondi no automático: “A mais idiota de todas eu fiz há 10 anos.” Ele, já exasperado: “Tá vendo?” Touché. O humor havia se tornado uma muleta social, um tique nervoso disfarçado de inteligência. Quando você vira refém da própria criatividade cômica, perde o controle sobre quando usar a ferramenta. Criei um monstro que me devora. O humor como qualquer ferramenta poderosa, pode se voltar contra quem o emprega. A linha entre usar o humor e ser usado por ele é mais tênue do que imaginamos.

Mas não precisa se preocupar com a saúde mental do meu herdeiro, porque a maldição se mostrou hereditária. Hoje, com trinta e tantos anos, meu filhote também se transformou em um comentarista crítico e sarcástico da condição humana. Mas ainda não tem um filho para lhe colocar no devido lugar.

A regra de ouro do humor inteligente

Existe uma regra simples para usar humor em contextos sérios: conheça seu público e escolha suas batalhas. Nem todo ambiente está pronto para a subversão humorística, e nem toda mensagem precisa dela. O humor funciona melhor quando é estratégico, não automático. Quando serve à mensagem, não ao ego de quem o emprega. Quando constrói pontes, não muros. Mas isso não significa que devemos nos render à tirania da solenidade. Significa que devemos ser inteligentes na nossa resistência.

As metáforas subversivas

Ao longo dos anos, desenvolvi mais de 100 metáforas humorísticas para explicar processos criativos: Pedrão, Processo House, Efeito Supositório, Comparômetro, Amaral (o amoral), São MacGyver, Processo House, Disruptofobia, os Hormônios Disciplinares “Você é um Idiota” e “Parabéns a Você”, Neurogúgou, Esfarrapadium, Neurônios Virgens. Cada uma dessas criações aparentemente irreverentes é, na verdade, uma ferramenta didática precisa para explicar fenômenos complexos. Elas funcionam porque simplificam sem infantilizar, porque tornam memorável sem banalizar. Confesso, porém, que, em alguns casos, me rendi covardemente ao Jorge de Burgos e amenizei o tom histriônico aplicado. Medo do julgamento e, consequentemente, da falta de aderência ao tema apresentado.

E aqui, justamente, está o terceiro paradoxo: quanto mais eficazes essas metáforas se mostram na prática, mais resistência geram no meio acadêmico e até nas pessoas comuns. Como se a eficácia pedagógica fosse inversamente proporcional à respeitabilidade intelectual. É uma lógica perversa que pune justamente aquilo que funciona melhor para transmitir conhecimento.

A tirania da solenidade

O que realmente está em jogo não é humor versus seriedade, mas dois modelos de autoridade intelectual. O modelo tradicional exige solenidade, distanciamento, uma aura de inacessibilidade que sinaliza profundidade. O modelo humorístico propõe proximidade, descontração, uma humanização que pode ser confundida com superficialidade. A verdade é que ambos podem ser profundos ou rasos, dependendo de quem e como os emprega.

É um preconceito cognitivo que nos custa caro. Quantas ideias importantes foram ignoradas porque chegaram embrulhadas em risos? Quantos insights valiosos foram descartados porque não vieram com a embalagem sisuda que esperávamos? A solenidade tornou-se uma performance vazia, um ritual de credibilidade que muitas vezes mascara a ausência de conteúdo real.

O humor como subversão consciente

Talvez a resistência ao humor seja, no fundo, uma resistência à subversão. Porque o humor é, por natureza, iconoclasta. Ele questiona, desconstrói, aponta absurdos. E uma sociedade que depende de certas solenidades para manter sua estrutura de poder não pode permitir que elas sejam sistematicamente questionadas. Quando Jorge de Burgos matava quem ousava rir, ele não estava defendendo Deus. Estava defendendo uma estrutura de poder que dependia da veneração acrítica. O humor é o inimigo natural de qualquer autoridade que se sustenta no medo de ser questionada.

Por isso, usar humor em contextos intelectuais é sempre um ato político. É uma recusa a aceitar que o conhecimento deve ser transmitido apenas através de canais austeros e hierárquicos. É uma aposta na ideia de que a verdade pode ser encontrada tanto no riso quanto no choro, tanto na leveza quanto na gravidade.

A morte do humor como sintoma

Nossa resistência cultural ao humor em contextos intelectuais é sintoma de algo maior: a morte da curiosidade genuína. Porque o humor verdadeiro nasce da mesma fonte que a descoberta científica – a capacidade de ver o familiar de um ângulo novo, de encontrar conexões inesperadas, de questionar o que parece óbvio. Uma sociedade que pune o humor intelectual está, na verdade, punindo a própria criatividade. Está escolhendo a segurança da ortodoxia sobre o risco da inovação.

Vivemos numa época em que o conformismo intelectual se disfarça de seriedade, e a criatividade é vista como falta de foco. Não é coincidência que os ambientes mais inovadores – do Vale do Silício aos laboratórios de startups – sejam também os mais descontraídos. Eles entenderam que a criatividade e o humor são aliados, não inimigos.

O preço da seriedade forçada

E aqui chegamos ao paradoxo final: ao tentar preservar nossa credibilidade evitando o humor, estamos, na verdade, empobrecendo nossa comunicação. Estamos escolhendo ser respeitados à distância em vez de ser compreendidos de perto. É uma escolha legítima, mas é uma escolha. E como toda escolha, tem consequências. A mais grave é que estamos criando uma cultura intelectual estéril, onde a forma importa mais que o conteúdo, onde a performance de seriedade substitui a substância real.

Jorge de Burgos morreu queimado por seus próprios livros, incapaz de aceitar que o conhecimento pudesse vir embrulhado em algo diferente de sua ortodoxia sombria. Ele preferiu destruir a biblioteca inteira a permitir que uma única obra de comédia sobrevivesse. Nós, felizmente, não chegamos a esse extremo. Mas nossa resistência sistemática ao humor intelectual é uma versão mais sutil da mesma mentalidade fanática. E se continuarmos nesse caminho, corremos o risco de criar nossas próprias bibliotecas incendiadas – não pelo fogo, mas pela aridez de uma seriedade que esqueceu como sorrir. E isso não é nada engraçado.

Henrique Szkło
eu@henriqueszklo.com