mudanca

Pare de se adaptar às mudanças

A história da humanidade é marcada por momentos de ruptura e por indivíduos que, em vez de aguardarem as circunstâncias se transformarem por si próprias, tomaram a iniciativa de provocar mudanças. Essa postura ativa resultou em inovações que alteraram o curso do desenvolvimento humano, desde a invenção de ferramentas rudimentares até as tecnologias mais avançadas dos dias atuais.

Por outro lado, muito se fala em adaptação a mudanças como uma competência essencial no mundo contemporâneo. Empresas, escolas e consultores enfatizam a importância de saber lidar com o inesperado para manter a competitividade e a relevância. Mas em que ponto a adaptação, necessária em situações de crise ou de evolução constante, pode se tornar um simples ato de conformismo? Se somos pegos de surpresa e precisamos mudar na marra, isso demonstra uma falta de antecipação — a qual, em última análise, pode significar perda de oportunidades.

Minha proposta neste artigo é discutir o contraste entre adaptação e criação de mudanças, analisando aspectos históricos, psicológicos e culturais que levam um indivíduo (ou uma sociedade) a se antecipar aos fatos. Dizem que a postura proativa é fundamental em um cenário de rápidas transformações, pois aqueles que apenas reagem tendem a ficar atrás, sendo forçados a reformular-se às pressas. A partir de exemplos clássicos e contemporâneos, vou demonstrar como pensar e agir de maneira criativa pode ser a chave para alcançar não apenas o sucesso individual, mas também para mudar paradigmas em larga escala.

Quem espera nem sempre alcança

Éclichê afirmar que o ser humano é um animal inventivo. Por isso mesmo a importância dessa característica na construção da nossa história não pode ser subestimada. Desde os primórdios, precisamos desenvolver ferramentas para caça e para manipular o ambiente, sem as quais nossa sobrevivência estaria comprometida. Eles não encontraram essas ferramentas na Shopee, tiveram que inventar do zero. Esse esforço não surgiu de uma passividade diante da necessidade; pelo contrário, foi resultado de um processo ativo de observação, experimentação e inovação.

Quando o homem sentiu frio, não esperou que caíssem anoraques do céu. Observou outros seres vivos, que pareciam mais resistentes às intempéries, e teve o insight de utilizar peles de animais como proteção. Essa ideia simples, mas revolucionária para a época, permitiu a expansão para regiões de clima mais rigoroso, aumentando não apenas as chances de sobrevivência, mas também a possibilidade de desenvolvimento de novas culturas e trocas comerciais.

Essa postura criativa não envolveu esperar que as circunstâncias se acomodassem; foi uma ação consciente de moldar o ambiente de acordo com as próprias necessidades. A habilidade de alterar a natureza e até mesmo de modificar a si próprio — por meio de aprendizado e de adaptações culturais — é um traço fundamental do que chamamos de “humanidade”.

A voz passiva

A adaptação, por si só, não deve ser encarada como algo negativo. É natural e até saudável ajustar-se a novas condições, pois as transformações do mundo, hoje em especial, ocorrem em um ritmo impressionante. A Revolução Digital, por exemplo, traz mudanças profundas na forma de trabalhar, de estudar e de interagir socialmente. Quem não se adapta minimamente a essas inovações acaba, inevitavelmente, excluído de oportunidades profissionais e sociais. Não existe nada mais anacrônico do que usar o telefone como… telefone.

Todavia, há uma linha tênue entre a capacidade de adaptação e o ato de simplesmente aceitar passivamente um conjunto de circunstâncias desfavoráveis. Em outras palavras, quando a única postura é reagir depois que o problema já se instalou, existe um alto risco de perda de competitividade, de atraso na tomada de decisão e de estresse desnecessário.

Um exemplo de adaptação passiva com reação tardia é quando ocorre uma crise econômica e muitas empresas saem batendo cabeça para cortar custos e adotar medidas emergenciais. Se elas tivessem se preparado antes, com reservas de contingência e estratégias de diversificação, a necessidade de correr atrás do prejuízo seria muito menor. Zagueiro que fica esperando o atacante dominar a bola para só aí dar o combate, está pedindo para tomar um drible. O bom zagueiro é aquele que se antecipa à jogada. E tem muita empresa por aí levando cada olé…

Assim, embora a adaptação seja inevitável em certos cenários, permanecer apenas nesse modo reativo pode ser interpretado como uma forma de conformismo, na qual se espera, quase de maneira fatalista, que as transformações aconteçam para então fazer o mínimo necessário para sobreviver.

O eterno deus Mu Vuca

Vivemos em um mundo VUCA (acrônimo em inglês para Volatility, Uncertainty, Complexity, Ambiguity) , termo criado pelo Exército dos Estados Unidos, no final da década de 1980. Nesse contexto, agir proativamente não é apenas recomendável — é crucial para se manter relevante.

Volatilidade: Mudanças rápidas e imprevisíveis exigem uma mentalidade flexível. Quem se antecipa a tendências que podem despontar no futuro está mais preparado para lidar com oscilações no presente.

Incerteza: A falta de previsibilidade em diversos setores faz com que as projeções se tornem menos confiáveis. Quem investe em pesquisas de mercado, inovação e desenvolvimento de produtos novos reduz a dependência de um cenário estático.

Complexidade: A multiplicidade de fatores interconectados (econômicos, sociais, tecnológicos) torna a tomada de decisão muito mais desafiadora. A criatividade e a inovação são armas poderosas para desatar nós complexos e propor soluções inesperadas.

Ambiguidade: Situações ambíguas não têm respostas fáceis. Exigem uma abordagem experimental, na qual se testa, analisa e refina propostas até encontrar o melhor caminho. Esse processo exige proatividade para que não se fique paralisado pela falta de clareza.

Portanto, a proatividade atua como um antídoto à simples adaptação tardia. Quem se antecipa às tendências e às possíveis crises pode moldar o futuro e ditar o ritmo de mudança, em vez de apenas segui-lo.

Gente que mudou o mundo

A história é rica em exemplos de pessoas e civilizações que floresceram justamente por buscar soluções antes de serem obrigadas a agir pela força das circunstâncias.

Nas civilizações agrícolas, a domesticação de plantas e animais não foi um resultado de passividade. Foi fruto de observações e experimentos que levaram à transformação de culturas nômades em comunidades sedentárias, possibilitando o surgimento de cidades e de estruturas de poder mais complexas. Poderíamos dizer que, se esses grupos humanos tivessem ficado apenas reagindo às estações do ano e às migrações de animais, jamais teriam desenvolvido a agricultura.

Já na Revolução Industrial, advento das máquinas a vapor e a mecanização dos processos produtivos mudou radicalmente o mundo. É inegável que muitas dessas inovações vieram de necessidades reais (aumento da produtividade, falta de mão de obra especializada em determinados setores etc.). No entanto, inventores como James Watt (1736–1819), engenheiro mecânico e químico escocês que se tornou célebre por aprimorar de forma decisiva a máquina a vapor, e Richard Arkwright (1732–1792), conhecido como o “Pai do Sistema de Fábricas”, pioneiro na criação de fábricas têxteis que empregavam centenas de trabalhadores, estabelecendo o modelo de manufatura em larga escala, não apenas reagiram à demanda; eles investiram tempo, dinheiro e inteligência para criar uma nova realidade tecnológica, abrindo mercados que sequer existiam. Na segunda Revolução Industrial encontramos exemplos como Thomas Edison e Henry Ford.

Na Era Digital se dá da mesma maneira. Nos últimos anos, empresas de tecnologia — como Microsoft, Apple, Google, Amazon — destacaram-se por criarem produtos e serviços que, muitas vezes, os consumidores nem sabiam que precisavam. O poder de antecipação, nesse caso, mudou paradigmas e moldou a sociedade de forma irreversível. Agora, a inteligência artificial inaugurou um novo capítulo nesta saga. Quem sabe como serão os próximos capítulos?

Sem querer também é inovação

É quase impossível falar de inovação sem mencionar o acaso ou a sorte. Muitos relatos célebres sobre descobertas científicas e invenções tecnológicas envolvem algum elemento fortuito, como a maçã que supostamente caiu na cabeça de Newton, servindo de aviso para sua teoria sobre a gravidade. Contudo, é importante frisar que, mesmo quando o acaso está presente, a atitude diante da oportunidade é o que faz a diferença.

O próprio Newton não formulou suas leis da física simplesmente por ter sido atingido por uma fruta. Havia um extenso trabalho de observação, estudo e sistematização que o prepararam para entender o significado daquele incidente. Do contrário, poderia ter sido apenas mais uma história de alguém que levou uma pancada na cabeça.

O cientista Alexander Flemingnotou que uma placa de cultura de bactérias fora contaminada por fungos — um acaso que, à primeira vista, seria um erro de laboratório. Ele observou que as bactérias ao redor do fungo morriam e teve a percepção de que estava diante de uma substância antibacteriana potente. Ele estava diante do que se conheceu depois como penicilina, a droga mais importante da história do mundo. Outro cientista talvez descartasse a amostra contaminada sem sequer investigar mais a fundo. Outros exemplos são o post-it, o micro-ondas, o raio-x, o velcro e até, graças-a-deus, o Viagra.

Esses casos ilustram que o elemento de sorte é muitas vezes amplificado pelo preparo e pela predisposição ao insight. A proatividade intelectual (curiosidade e disponibilidade para investigar) é o fator-chave para transformar um evento corriqueiro em algo revolucionário.

Os trabalhos do Jobs

Um exemplo recente de alguém que encarnou esse espírito visionário foi Steve Jobs, cofundador da Apple. Embora haja críticas sobre seu estilo de liderança e sobre se ele efetivamente criou ou apenas ordenou que criassem, é inegável que Jobs tinha uma rara capacidade de antecipar o que as pessoas iriam querer antes mesmo de elas se darem conta disso. Ele costumava dizer que “as pessoas não sabem o que elas querem até que a gente mostre pra elas”. Um pouco arrogante da parte dele, mas com uma certa dose de razão. Outro titã da disrupção, o anti-semita Henry Ford, já citado neste artigo, também seguiu nesta mesma toada: “Se eu perguntasse para meus clientes o que ele queriam, iriam me responder: ‘carroças mais velozes’”.

Revolução dos smartphones

Antes do lançamento do iPhone, em 2007, a indústria de celulares já existia e era altamente competitiva. Jobs, porém, identificou oportunidades que iam além de um simples telefone: integração de funções de música, internet, aplicativos, GPS. Apostou em um modelo de tela sensível ao toque, praticamente sem teclas físicas, algo que hoje é padrão, mas que, na época, representava um risco considerável. Ele contrariou a máxima de que não se deve abrir um negócio que não se tem experiência, como uma pousada na praia, um restaurante ou um sex shop.

O que deixa a coisa mais impressionante é que ele não estava lidando com crianças. Enfrentou competidores tradicionais que não eram apenas fabricantes recentes de celulares, mas sim empresas centenárias ou de muitas décadas no ramo de telecomunicações. Nokia, por exemplo, foi fundada em 1865. A Motorola foi fundada em 1928. A Ericsson em 1876, a Siemens em 1847, e por aí vai. Essas empresas não apenas fabricavam celulares, mas eram veteranas em pesquisa e desenvolvimento de infraestrutura de telecomunicações. A virada para o sistema de tela sensível ao toque, sem teclado físico e com um ecossistema de aplicativos, foi uma revolução que pegou esses players de surpresa.

Também não dá pra esquecer mais um caso clássico de vergonha alheia; o ex-CEO da Microsoft, Steve Ballmer, ironizou o projeto do iPhone, dizendo que seria “o celular mais caro do mundo” e que “não teria apelo para o mercado corporativo” por não ter teclado físico. Hoje este cara é bilhardário, portanto, não está nem aí com o que acham dele. Como dizia o Millôr Fernandes, “dinheiro não é tudo na vida, mas permite que você seja tão desagradável quanto queira”.

Bem, acabei me desviando do assunto. É que qualquer história que tem muito dinheiro envolvido acaba me distraindo e me tirando do foco. Então, sigamos com o artigo.

Ecossistema integrado

A forma como a Apple conectou seus dispositivos (computadores, smartphones, tablets, relógios) também antecipou a tendência de sincronização total, hoje adotada por muitas outras empresas de tecnologia. Mais do que reagir ao mercado, a Apple criou um mercado, estabelecendo novos paradigmas de consumo e de interação.

Talvez a maior lição deixada por Jobs seja exatamente a de que, em um ambiente de mudanças rápidas, quem puxa a fila desfruta de vantagens competitivas e, não raro, torna-se sinônimo de inovação no imaginário popular.

Hoje a Apple não é mais disruptiva como antes, mas continua vivendo um pouco as custas da imagem de benchmark de inovação disruptiva. Costumo dizer, que agora ela é uma Samsung com um design melhor. Talvez seja implicância minha, não sei.

Errar é ruim mas é bom

Um ponto crucial na distinção entre adaptação e criação de mudança é entender que a inovação não surge, na maioria das vezes, de um momento eureka isolado. Geralmente, há um processo contínuo de tentativa e erro, no qual ideias são testadas, descartadas ou refinadas até se chegar a algo viável.

Thomas Edison é famoso por dizer que não havia falhado milhares de vezes antes de inventar a lâmpada, mas sim descoberto milhares de maneiras de como não fazê-la. Esse tipo de persistência é típico do gênio inovador, que entende a importância do fracasso como parte do percurso. Eu mesmo acredito que no processo criativo, nunca estamos errados. Na maioria das vezes, apenas não sabemos como acertar.

Um caso clássico é o daquele lubrificante WD-40, criado em 1953 por Norm Larsen, da Rocket Chemical Company . O nome é a abreviação de Water Displacement, 40th formula, que significa “Deslocamento de água, fórmula número 40”, ou seja, foram necessárias 40 tentativas para que chegassem a uma mistura que funcionasse de modo eficaz.

Ambientes corporativos muitas vezes punem o erro de forma severa, inibindo a criatividade. Organizações que se destacam em inovação, ao contrário, tendem a criar espaços de experimentação, nos quais errar faz parte do processo construtivo. Assim, a cultura corporativa precisa valorizar a proatividade e a disposição de correr riscos calculados, não apenas a conformidade com protocolos e regras pré-estabelecidas.

Em síntese, a proatividade implica aceitar que errar faz parte do jogo e que cada fracasso traz informações valiosas para ajustar o rumo, seja de um produto, de um projeto ou de um plano de vida.

Ouse ser prudente

Sair na frente na corrida da inovação também tem seus perigos. Muitas ideias falham espetacularmente, gerando prejuízos financeiros e frustrações pessoais. Por isso, a coragem de arriscar costuma estar associada a uma boa dose de análise prévia, gerenciamento de riscos e planejamento estratégico. O simples impulso de fazer diferente não garante sucesso; é preciso combinar a criatividade com uma boa compreensão das dinâmicas do mercado e das necessidades (ainda não atendidas) das pessoas.

Contudo, se apenas copiarmos o que todos fazem, continuaremos na inércia. A questão, então, não é evitar o risco, mas saber administrá-lo e mitigá-lo. Esse equilíbrio entre ousadia e prudência é o que separa as tentativas de inovação bem-sucedidas das que não sobrevivem à realidade do mercado.

Não se adapte às mudanças. Crie as suas

A transformação constante é uma das únicas certezas do mundo atual. Diante dela, podemos adotar duas posturas: adaptar-se reativamente, esperando que as circunstâncias nos obriguem a mudar, ou assumir o papel de criadores de mudança, atuando de forma proativa para moldar o futuro.

A primeira postura garante, no máximo, a sobrevivência temporária; a segunda permite não apenas sobreviver, mas também prosperar e influenciar positivamente o rumo da história, seja na esfera pessoal, seja na coletiva.

Entre a acomodação e a proatividade, quem opta pela última demonstra que entendeu a principal lição da natureza e da evolução humana: avançar requer ação intencional, não simplesmente a espera de que algo simplesmente caia do céu. E mesmo quando cai— como a maçã de Newton —, é a disposição de explorar ideias e de enxergar além do óbvio que faz toda a diferença. Aliás, você sabia que o primeiro logo da Apple era uma ilustração do Newton embaixo de uma árvore segurando uma maçã?

Em meio a revoluções tecnológicas, sociais e culturais cada vez mais rápidas, quem se antecipa e lidera a mudança obtém vantagens, aprende mais e constrói, em certa medida, a próxima etapa da história coletiva. Assim, a grande pergunta que fica é: até que ponto estamos dispostos a deixar de ser apenas seguidores e assumir o risco criativo de pensar diferente? Se o sucesso não é garantido por ninguém, tampouco seguir o rebanho assegura resultados extraordinários. E, em última instância, quem quer realmente fazer a diferença precisa estar preparado para, pelo menos uma vez, arriscar um caminho inédito.

É claro que foi uma provocação

Este artigo tem um viés um pouco exagerado, mas foi proposital. Na verdade eu considero que a adaptação a mudanças é uma das mais importantes virtudes do ser humano. Existe uma frase atribuída ao Charles Darwin— “my man”, como dizem os estadunidenses— que diz mais ou menos assim: “Não é o mais inteligente nem o mais forte que sobrevive. É aquele que se adapta”. A adaptação às circunstâncias e ambientes é o que faz com que muitas espécies evoluam e outras se percam no caminho.

A criatividade aliás, é a nossa ferramenta biológica de adaptação. Graças a ela fomos capazes de realizar tudo aquilo a que me referi neste artigo, e muito mais. Diferente dos animais irracionais, que sói conseguem se adaptar fisicamente, o que pode levar centenas de milhares de anos, nós, Homo sapiens, conseguimos nos adaptar usando as ferramentas que inventamos. Tudo o que nos rodeia é ferramenta de adaptação. A lâmpada do Edison é uma ferramenta. A penicilina do Fleming é uma ferramenta. O post-it é uma ferramenta. O Viagra também é. E o smartphone é uma caixa de ferramentas.

Então, ativo ou reativo, o importante é ser criativo, ser subversivo, questionar sempre, fazer as coisas de um jeito original. Como dizia Steve Jobs (ele de novo): “think different”.

Henrique Szkło
eu@henriqueszklo.com