beatles na neve

O verdadeiro monstro do rock foi o frio

Todo mundo repete a lista: Beatles, Stones, Zeppelin, Sabbath, Floyd, Pistols, Clash, Nirvana, Pearl Jam. Os monstros sagrados do rock. Mas e se o verdadeiro monstro, o que realmente moldou essa música, não fosse Lennon ou Cobain, mas algo muito mais banal e implacável: o clima? E se o rock britânico e o grunge de Seattle não fossem apenas fruto do talento individual, mas da pressão ambiental de lugares que transformaram frustração em válvula de escape na forma de riffs?

A diferença entre frio e calor não está apenas na temperatura, mas no tipo de impulso criativo que produzem. O frio confina, aperta, acumula. Daí nasce a angústia, a introspecção, o tédio que pede catarse. O calor, ao contrário, expande, dissolve, abre espaço. Daí nasce a festa, o corpo, a música coletiva. Essa dicotomia pode explicar por que a Inglaterra e Seattle pariram angústia elétrica enquanto os trópicos pariram celebração rítmica.

O DNA é o mesmo: o blues afro-americano, nascido da pobreza e da exclusão, mutado no jazz coletivo. Esse código atravessou o Atlântico e encontrou uma ilha devastada pela guerra. O pós-guerra britânico não era só reconstrução física; era racionamento, austeridade, ruínas ainda frescas. “A Day in the Life”, dos Beatles, pode soar psicodélica, mas é também o retrato de uma vida ordinária, feita de notícias banais e acidentes no trânsito — uma monotonia britânica sublimada em pop. O Pink Floyd de Dark Side of the Moon ecoava essa mesma sombra: paranoia, alienação, tempo escorrendo entre os dedos. Não é acaso: eram filhos de um ambiente onde o futuro parecia gasto antes de começar.

Birmingham transformou metalurgia em guitarras graves. O Sabbath abre seu primeiro disco com trovões e sinos fúnebres — não é só estética: é atmosfera industrial condensada em som. Liverpool, porto úmido, devolveu Beatles e Stones. Londres, ainda cinza, virou caldeirão: progressivo com o Floyd, teatralidade com o Queen, o grito punk no auge da crise econômica. Os Sex Pistols cuspiram “No Future” como se fosse slogan político — e era. O desemprego juvenil passava dos 20%. God Save the Queen foi proibida na BBC não só pelo insulto à monarquia, mas porque traduzia uma Inglaterra em colapso. O Clash respondeu com London Calling: sirenes, colapso nuclear, cidade afundando. A raiva não era só pose; era estatística social.

Seattle repetiu o script, mas nos anos 80. Cidade eternamente chuvosa, isolada, sem glamour, e em plena recessão: empregos desaparecendo, famílias corroídas, heroína barata. Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, soava como hino de geração, mas era um grito de tédio e apatia: “Here we are now, entertain us.” Não é inspiração mística; é sarcasmo de jovens encurralados pelo nada. O Soundgarden cantava sobre sufocamento, Alice in Chains falava de drogas como quem fala de pão, e o Pearl Jam surgia com Alive, que, ironicamente, era menos celebração de vida e mais confissão de trauma. O palco era só extensão do clima: abafado, pesado, sem saída.

Nos trópicos, a resposta foi outra. A pobreza também é real, mas o calor chama para fora. O samba transforma sofrimento em roda, o reggae faz da miséria um groove coletivo. Marley canta Get Up, Stand Up como oração política, mas é também música de festa. A precariedade virou celebração, mas uma celebração, não se pode negar, muitas vezes temperada com melancolia. Até a bossa nova, exceção criada por jovens de classe média, bebeu de duas fontes originárias da pobreza e da opressão: o jazz e o próprio samba.

E quando digo clima, não me refiro só ao guarda-chuva e ao casaco. Estou falando de um ambiente imaterial que une espaço físico com contexto histórico. O mesmo aconteceu na Renascença europeia, mas que diferente do rock britânico e do grunge de Seattle, foi cuidadosamente nutrido por mecenas. E tem também o Vale do Silício, arquitetado por universidades, militares e investidores.

O rock britânico e o grunge de Seattle foram produtos de ambientes hostis, improvisados, sem patrocínio. Sem acolhimento. Só desilusão. Havia pubs, rádios piratas, instrumentos usados e muito tempo ocioso. Redes de sociabilidade, normas, políticas públicas, transportes, custo de aluguel, fechamento antecipado de pubs moldando horários de shows, escassez de estúdios pressionando eficiência, o papel de críticos específicos, de radialistas teimosos, de lojas de disco que funcionavam como universidades clandestinas. Poderíamos e nos perderíamos.

Era um cluster hostil, não planejado. O tempo lá fora e o tempo histórico são cúmplices: juntos, eles criam não apenas estações, mas sonoridades. E foi desse caldo — neve, fumaça de fábrica, prédios em ruínas — que nasceram estes sons dissonantes: meteorologia e zeitgeist numa só pressão. O clima, a pobreza e a densidade se acoplam. Fabricam uma atmosfera que não apenas permite a genialidade — exige. Sim, eram todos gênios, mas sem o conforto do patrocínio da arte oficial; foi o chute no saco de músicos extremamente talentosos que pariu o rock. Um autêntico anti-Renascimento.

A Inglaterra e Seattle foram isso: estufas sombrias que aceleraram mutações. Os trópicos, por sua vez, foram pistas abertas onde a sobrevivência exigiu festa. E a festa, para quem acha que alegria é superficialidade, tem mais ciência do que se supõe: ela regula, organiza e cola comunidades. É o outro lado do mesmo instinto adaptativo.

O rock inglês dos anos 60, portanto, não nasceu da brisa da criatividade, mas da poeira do racionamento, da escassez ainda latejando no cotidiano de uma Inglaterra em ruínas. O punk foi filho direto do desemprego e do tédio industrial dos anos 70, quando cada acorde era também um murro contra a precarização. O grunge brotou da umidade de Seattle, sim, mas também da recessão invisível que corroía a autoestima da juventude, transformando a apatia em hino. A música é sempre tradução: trovões no Sabbath, sirenes no Clash, sarcasmo ácido no Nirvana. Enquanto isso, samba, reggae e salsa germinavam em ruas ensolaradas, onde a precariedade não paralisava, mas virava celebração. Dois climas, dois motores, dois modos de suportar a mesma miséria — pela raiva ou pela celebração.

O verdadeiro monstro do rock foi a garoa que trancou jovens em porões, o tédio que os fez repetir acordes até virarem estilo, a crise econômica que deu conteúdo a cada verso desesperado. O surgimento de gênios é, em grande parte, o eco de uma meteorologia emocional acoplada a pressões sociais. O rock foi menos religião do que sobrevivência. Nascido em um clima suficientemente desconfortável para obrigar a criatividade a berrar. Mas sendo óbvio, toda regra tem exceções, como o The Doors em Los Angeles e os Beach Boys – rivais simbólicos  dos Beatles. Um mergulhado no abismo existencial em pleno paraíso solar, o outro transformando hedonismo em arte sofisticada. Esses monstros solares também se alimentaram de um zeitgeist próprio (contracultura californiana, psicodelia, drogas, cultura do surf).

E aqui entra uma diferença essencial em relação ao presente. O rock dos anos 60 e 70 não saiu de superescolas de música. Não havia Berklee, Juilliard, conservatórios ou programas de performance exportando instrumentistas técnicos para o mainstream. Os monstros do rock foram, em grande medida, autodidatas. Não conheciam todas as regras, portanto não se sentiram obrigados a obedecê-las. Lennon e McCartney nunca aprenderam a ler partituras; Keith Richards desmontava o violão até achar novos timbres; Iommi, do Sabbath, perdeu a ponta de dois dedos em uma fábrica e criou um estilo de afinação pesado para compensar. Brian May, do Queen, com a ajuda de seu pai, construiu uma guitarra juntando partes de velhas guitarras, a lendária “The Red Special”, responsável por uma sonoridade que praticamente definiu a identidade musical da banda. A falta de erudição formal era a própria fonte de inovação. Hoje, pelo contrário, a formação musical é cada vez mais escolarizada: virtuoses saem de universidades de música com habilidade impecável, mas frequentemente presos ao vocabulário que aprenderam. O resultado é técnica sem monstruosidade. Virtuose não é monstro. O monstro nasce do desvio, da gambiarra, da teimosia criativa.

Pesquisas em sociologia e psicologia cultural sustentam o argumento: Simon Frith lembra que gêneros são produtos de ecossistemas sociais, não de indivíduos isolados (Sound Effects, 1981; Performing Rites, 1996). Em Liverpool, Sara Cohen mostrou como espaço urbano e precariedade moldam cena e som (Rock Culture in Liverpool, 1991). Na psicologia, Teresa Amabile demonstra que criatividade é resposta a pressões contextuais, mais do que “dom” (Creativity in Context, 1996). A geografia cultural vem na mesma direção: Will Straw formaliza a ideia de “cenas” como ecologias temporais; Connell & Gibson mapeiam música, lugar e trabalho (Sound Tracks, 2003); Adam Krims liga morfologia urbana e estética musical (Music and Urban Geography, 2007). Há dissenso, claro: Howard Gardner enfatiza anomalias individuais (Creating Minds, 1993); D. K. Simonton mede “gênios” por produção e impacto ao longo do tempo (1997) — mas mesmo nesses quadros, o ambiente continua sendo o gás do motor. Quando olhamos os casos concretos, as curvas casam: punk sob desemprego e austeridade (Hebdige, Subculture, 1979; Savage, England’s Dreaming, 1991) e grunge sob recessão e isolamento pluviométrico (Yarm, Everybody Loves Our Town, 2011). Coincidência demais começa a parecer padrão.

Hoje, o surgimento de novos monstros como aqueles parece impossível. O que nasceu como grito de protesto — inconformismo operário em Londres, niilismo juvenil em Seattle — foi assimilado pela lógica do mercado e transformado em produto. O rock deixou de ser criatura do questionamento para se tornar produto de consumo. Foi absorvido pelo espetáculo antes de amadurecer em linguagem. O “No Future” dos Pistols agora estampa camisetas de grife, o sarcasmo de Cobain virou playlist corporativa, a distorção se tornou trilha sonora de comerciais de carro. A rebeldia que floresceu do desconforto foi empacotada e vendida como estilo de vida. O monstro foi domesticado e mora agora no zoológico do mainstream.

As tempestades que pariram riffs pesados e as tardes ensolaradas que inventaram harmonias suaves parecem hoje parte de uma paisagem distante. Não se trata de nostalgia: trata-se de constatar que a angústia e a festa já não precisam de guitarras para se expressar.

Quer dizer, então, que não existem mais gênios? Claro que sim. Gênios musicais sempre existiram e continuarão existindo. Mas o que temos hoje é um exército de virtuoses técnicos, bandas calculadas, nichos domesticados. Um clima sempre artificial: playlists algorítmicas, salas com ar-condicionado globalizado. Nenhum inverno ou verão produzirá novos monstros, apenas trends em redes sociais.

O excesso de opções gerou públicos fragmentados e adeptos ao consumo rápido. Os músicos atuais, a despeito de uma eventual genialidade, são apenas ídolos passageiros inevitavelmente presos a seus nichos.

Resumindo, acredito neste aforismo matemático do rock:

Gênio + Frio + Crise = Monstro

O gênio sozinho não explica nada; o frio sozinho só congela; a crise isolada só gera miséria. Mas quando esses três vetores se alinham, a faísca vira explosão. É por isso que nem todo gênio vira monstro, nem toda crise gera revolução, nem todo inverno produz riffs. É a combinação — rara, incômoda, quase alquímica — que ergueu Beatles, Sabbath, Nirvana.

Monstros britânicos e suas origens

The Beatles – Liverpool (anos 60) – Porto úmido, absorveram blues e rock americano e devolveram pop global.
The Rolling Stones – Londres (anos 60) – Classe média londrina, transformaram blues em hedonismo urbano.
The Who – Londres (anos 60) – Subúrbios britânicos, juventude entediada que explodia guitarras no palco.
The Kinks – Londres (anos 60) – Crônica irônica do cotidiano inglês, suburbano e sarcástico.
The Yardbirds – Surrey/Londres (anos 60) – Viveiro de guitarristas (Clapton, Beck, Page), berço do hard rock.
Cream – Londres (anos 60) – Primeiro supergrupo, blues psicodélico em trio virtuoso.
Jeff Beck Group – Londres (anos 60) – Laboratório de guitarra agressiva e experimental.
Pink Floyd – Londres (anos 60/70) – Psicodelia transformada em ópera espacial da paranoia moderna.
Led Zeppelin – Londres/Birmingham (anos 70) – Blues elétrico inflado até virar mito do hard rock.
Black Sabbath – Birmingham (anos 70) – Fábricas e tédio industrial destilados em heavy metal.
Deep Purple – Hertford/Londres (anos 70) – Hammond e guitarra em riffs que moldaram o hard rock.
Jethro Tull – Blackpool/Luton (anos 70) – Mistura improvável de flauta pastoral com riffs elétricos.
Genesis – Surrey (anos 70) – Escolas particulares gerando progressivo teatral e sofisticado.
Yes – Londres (anos 70) – Virtuosismo sinfônico, música de câmara elétrica.
Fleetwood Mac (fase inicial) – Londres (anos 70) – Blues britânico antes de virar pop californiano.
Queen – Londres (anos 70) – Mistura de ópera, rock e teatro em espetáculo global.
David Bowie – Londres (anos 70) – Camaleão que fez da mutação artística sua marca.
Elton John – Pinner, Middlesex (anos 70) – Pianista da Grande Londres que levou o pop a estádios.
Sex Pistols – Londres (anos 70) – Desemprego e raiva transformados em “No Future”.
The Clash – Londres (anos 70) – Punk com consciência política e sonoridade mestiça.
Joy Division – Manchester (final 70/início 80) – Pós-punk melancólico nascido da decadência industrial.
The Smiths – Manchester (anos 80) – Ironia suburbana, lirismo ácido, melancolia romântica.
The Cure – Crawley, West Sussex (anos 80) – Melancolia pop transformada em culto global.
Dire Straits – Deptford, Londres (anos 80) – Minimalismo elegante em meio ao excesso da época.
Iron Maiden – Londres, East End (anos 80) – Heavy metal épico, herdeiros da fúria industrial.
Judas Priest – Birmingham (anos 80) – Metal afiado, estética de couro e aço.
Def Leppard – Sheffield (anos 80) – Pop-metal industrial, produto do norte operário.
Oasis – Manchester (anos 90) – Britpop arrogante, herdeiros da raiva operária.
Blur – Colchester/Londres (anos 90) – Britpop irônico, classe média olhando para si mesma.

Monstros de Seattle e suas origens

Soundgarden – Seattle (anos 80/90) – Guitarras pesadas e experimentais, fundadores oficiais da estética grunge.
Nirvana – Aberdeen/Seattle (anos 90) – Hino da apatia juvenil, sarcasmo transformado em catarse global.
Alice in Chains – Seattle (anos 90) – Letras sombrias e vício como pauta central, grunge mais metálico.
Pearl Jam – Seattle (anos 90) – Herdeiros de Mother Love Bone, mistura de raiva e arena rock.

Referências:

  Frith, Sound Effects (1981); Performing Rites (1996).
  Cohen, Rock Culture in Liverpool (1991).
  Amabile, Creativity in Context (1996).
  Straw, “Scenes” (1991/2004) — ensaios sobre ecologias musicais.
  Connell & Gibson, Sound Tracks (2003).
  Krims, Music and Urban Geography (2007).
  Hebdige, Subculture: The Meaning of Style (1979).
  Savage, England’s Dreaming (1991).
  Yarm, Everybody Loves Our Town (2011).
  Gardner, Creating Minds (1993).
  Simonton, artigos sobre criatividade eminente (1997–2000).

Henrique Szkło
eu@henriqueszklo.com