12 ago Não sou influencer. Mas acho que você já tinha percebido
Hoje, influenciar não é mais provocar pensamento, estimular reflexão — é induzir comportamento. É o soft power esvaziado, travestido de truque de luz com legenda carismática. O influencer é o novo missionário secular: prega para converter, mas converte para engajar. Esse evangelho contemporâneo está em total sintonia com as igrejas neopentecostais: sacrificam a conexão com o mistério oferecendo atalhos para o paraíso da relevância. É uma falsa religião porque dispensa a dor do purgatório.
A real transformação está relacionada necessariamente aos cantos vivos de nossa trajetória pessoal ou profissional. Ninguém evolui sem se machucar. Ninguém se transforma sem atrito. As cicatrizes são nosso currículo na vida. E a maioria dos influencers não oferece atrito. São vendedores de harmonização factual.
Engajar é o novo obedecer.
É claro que existem influencers de valor, portadores de mensagens relevantes e com um volume de seguidores compatível com sua qualidade. Mas neste artigo não estou me referindo a eles, pois são exceções.
Como diria Byung-Chul Han, a positividade tóxica do desempenho nos transformou em empreendedores de nós mesmos. Um exército de narcisos produtivos, vendendo autenticidade pasteurizada em vídeos de 30 segundos. Somos a mercadoria e o vendedor. A vitrine e o estoque. O escravo e o capataz — com feed otimizado.
Escolhi não jogar esse jogo. Talvez porque eu não queira ou simplesmente porque eu não saiba como fazer. A futilidade cansa minha beleza e sou alérgico a superficialidade coreografada. Enquanto os algoritmos pedem mais do mesmo com pequenas variações emocionais de conveniência, sigo interessado naquilo que não rende engajamento, mas implode certezas.
O LinkedIn exige performance de vulnerabilidade estratégica. O Instagram quer sofrimento com filtro Paris. O TikTok quer crítica em ritmo de forró. O influenciador virou um avatar de si mesmo — um simulacro, no sentido baudrillardiano: nem verdadeiro, nem falso. Apenas necessário para que o sistema se reconheça nele e diga: “segue o fluxo.”
Mas eu não quero seguir o fluxo. Sou um salmão, nadando contra a correnteza, dando saltos acrobáticos, sabendo que o risco de virar almoço de urso é parte do contrato. Minha trajetória de vida não é sobre resultados. É sobre propósito.
Prefiro mil vezes ser o ruído na transmissão. Sempre preferi. Muito antes da internet sonhar em nascer eu já incomodava. Já derramava o leite mau na cara dos caretas. São incontáveis os trabalhos em que arrisquei tudo: meu eventual prestígio, minha imagem, minha autoestima, meus proventos. E mesmo que na maioria das vezes – maioria com M maiúsculo – eu tenha quebrado a cara, nunca me arrependi de tentar. A gente não deve se arrepender de ser nós mesmos. Aparentemente eu não vim ao mundo para celebrar a paz mundial. Quero invadir novos territórios sempre que achar que eles estão sendo ocupados por impérios colonialistas opressores.
A motivação criativa nasce de dois prazeres: o de criar e o de ser apreciado pela opinião pública — o que nem sempre acontece. Ambos são legítimos, mas independentes. O criativo precisa saber separa-los de forma clara. O primeiro é visceral, pessoal, íntimo. O segundo, circunstancial, dependente de agentes externos incontroláveis. É por isso que o prazer de criar não pode ser refém da aceitação. A frustração de um trabalho não reconhecido não pode apagar a magia do momento da criação. É claro que um trabalho criticado ou, pior, ignorado, rasga a carne do criador. Mas se você escolheu ser malabarista, tem que saber que a queda é sempre uma possibilidade. E quanto mais difícil o movimento, maior o risco de queda. E quanto maior o risco de queda, maior o risco de sucesso, de aplausos. O Cirque du Soleil não construiu seu legado fazendo piruetas inofensivas. O criativo precisa saber lidar com a solidão da obra ignorada. Com o frio do palco vazio.
Sim, quero ter meu trabalho reconhecido. Mas não a qualquer custo. É o prazer de criar que alimenta minha alma. De uma teoria filosófica complexa até o convite de aniversário dos meus netos. Criar é meu combustível. Meu vício. Quando fico sem criar por muito tempo sinto crise de abstinência. A minha zona de conforto é o desconforto cognitivo.
Não vou mentir. Quando por alguma razão crio alguma coisa no modo preguiça e a coisa repercute, acho bom. Mas se eu tiver que escolher entre um trabalho ousado ignorado e um banal viralizado, escolho o primeiro.
Pra mim, sofrer pelo não reconhecimento de um trabalho criativo que me custou horas e neurônios, é um orgasmo às avessas. Na hora fico cansado e desinteressado. Mas em pouco tempo já estou de novo atraído pelo novo, pelo inusitado, pelo subversivo, pelo risco. No fundo sou um João-Bobo metacognitivo. Levo porrada, mas volto. Sempre. Todo criativo é, antes de tudo, um chato que não se conforma com o quadradinho que lhe foi reservado.
Guy Debord já alertava sobre a sociedade do espetáculo, mas talvez ele tenha subestimado o quanto adoraríamos virar nosso próprio show. Hoje, todo pensamento precisa caber em um post. Toda complexidade precisa de um CTA no final. Até a revolta precisa ser instagramável.
Eu recuso. Não por vaidade — embora ela exista — mas por higiene cognitiva. Minha vaidade quer aplauso criativo, não viralização adestrada. Se conseguir, ótimo. Mas se não, sigo em frente. Porque a missão é maior que o ego. E o ego, quando bem adestrado, vira ferramenta — não mania.
Entre criar ideias que viralizam ou que incubam, prefiro a segunda. Se eu não conseguir emocionar, pelo menos que eu consiga intoxicar lentamente a estrutura do discurso dominante. Se não for capaz de engajar, que eu contamine o solo dos dogmas intransigentes. Como um vírus de pensamento. Invisível. Persistente. Incurável. Que se espalha nos bastidores da mente — e não nos stories de alguém com blazer azul e um call to action sobre “liderança compassiva”.
David Foster Wallace já dizia: “Você vai adorar coisas que não te fazem bem. Vai se entregar a rotinas que parecem escolhas. Vai se sentir livre por seguir um cardápio de opções que nunca questionou.” O influencer é o prato principal dessa farsa gourmetizada: uma liberdade servida com molho de conformismo.
A minha influência não se mede em seguidores acumulados mas em desconforto provocado pelo ato doloroso de pensar com a própria cabeça.
Eu quero outra coisa. Quero criar sem permissão. Pensar sem moldura. Falar sem thumbnail. Escrever sem necessariamente seduzir. Odeio gatilhos mentais. Abomino neuromarketing. Prefiro a metacognição à manipulação. Não quero entregar as coisas mastigadas e prontas para consumo.
Quero ser o agente provocador do livre-pensar. Não porque eu seja puro — mas porque, talvez, a vida tenha me ensinado a me defender das ameaças chegando a conclusões a partir de muita reflexão e uma busca incansável por honestidade intelectual. Meu objetivo não é estar certo. É estar o mais certo possível.
Quero viralizar? Ter milhões de seguidores? Claro que quero! Mas se acontecer vai ter que ser nos meus termos, nas minhas condições. Mais do que teimoso, sou idealista, pobre de mim. Sou um daqueles iludidos que preferem perder jogando bonito do que ganhar jogando feio. Provavelmente vou passar o resto dos meus dias nadando e morrendo na praia. Mas que seja uma daquelas de cartão postal.
Mas de quem é a culpa da minha falta de relevância? São vários os fatores que me colocam nesta posição de bebê chorão: tem o algoritmo, claro, que distribui mais o que é palatável. Tem o público, que tem preguiça mental e desinteresse pela contraposição às suas ideias. E eu, que provavelmente não tenho qualidade suficiente para gerar interesse pelo meu trabalho.