10 nov Um dia as máquinas vão gostar de ouvir histórias? E por que precisamos saber disso? (Parte 6)
Uma série de 8 artigos publicados a cada 2 dias
São necessárias emoções genuínas
As emoções genuínas desempenham um papel crucial na formação do comportamento humano, influenciando não apenas nossas reações imediatas, mas também nossas decisões racionais e emocionais. Ao contrário do que se pode pensar, a razão e a emoção não são opostos, mas sim forças complementares que trabalham juntas para nos ajudar a navegar pelo mundo. As emoções fornecem a base sobre a qual construímos nossas escolhas racionais, e sem elas, nossas decisões seriam desprovidas de contexto, propósito e significado. As emoções nos impulsionam. Para o bem e para o mal.
A capacidade de sentir emoções autênticas é essencial para administrar a curiosidade, uma força vital que impulsiona o comportamento criativo. A curiosidade é alimentada pela emoção, pelo desejo de explorar o desconhecido e de entender o mundo ao nosso redor. Sem emoções genuínas, essa curiosidade se tornaria uma busca estéril, desprovida do entusiasmo e da paixão necessários para descobrir novas ideias e possibilidades. Além disso, a razão é frequentemente utilizada como uma ferramenta para tentar compreender e canalizar essas emoções, permitindo que possamos lidar com as complexidades da vida de forma mais equilibrada e eficaz.
Como relatei no início deste artigo, o senso do que é certo e errado também está intimamente ligado às nossas emoções. Sentimentos como prazer e dor são fundamentais para nos guiar na definição desses conceitos morais. O prazer, por exemplo, nos sinaliza que estamos no caminho certo, enquanto a dor nos alerta sobre potenciais erros ou perigos. Essas sensações não são apenas reações físicas, mas também manifestações profundas de nossa compreensão emocional do mundo. Elas nos ajudam a desenvolver autocrítica, a capacidade de refletir sobre nossas ações e julgamentos com uma perspectiva equilibrada, ajustando nosso comportamento conforme necessário.
Além disso, as emoções são essenciais para lidarmos com insegurança, dúvida, intuição, medo e frustração – todos elementos que formam um verdadeiro cardápio emocional, que por sua vez é a força motriz do comportamento criativo. A insegurança e a dúvida nos fazem questionar o status quo, abrindo espaço para novas ideias e perspectivas. A intuição é uma manifestação de nossa experiência emocional acumulada, que guia nossas decisões de maneira quase subconsciente. O medo, por sua vez, pode ser tanto um obstáculo quanto um catalisador, impulsionando-nos a superar desafios e a inovar para evitar ameaças percebidas.
A frustração, embora muitas vezes vista como uma emoção negativa, também tem um papel crucial no processo criativo. Ela surge quando enfrentamos barreiras ou falhas, mas é precisamente essa sensação que nos motiva a persistir, a experimentar novas abordagens e a encontrar soluções criativas. Em conjunto, essas emoções criam um ambiente interno rico e dinâmico, onde a criatividade pode florescer. Sem essa montanha russa, o comportamento criativo perderia sua vitalidade, tornando-se uma mera execução mecânica de tarefas sem a profundidade e a inovação que caracterizam a verdadeira criatividade humana.
Portanto, as emoções genuínas são muito mais do que simples reações; elas são o alicerce sobre o qual construímos nossa compreensão do mundo e de nós mesmos. Elas orientam nossas escolhas, alimentam nossa curiosidade, e nos capacitam a enfrentar e superar os desafios da vida. No contexto da criatividade, elas são a força motriz que transforma pensamentos abstratos em ideias inovadoras, em ações ousadas e em soluções que desafiam o senso comum. Sem emoções genuínas, estaríamos privados daquilo que nos torna verdadeiramente humanos, e nossa capacidade de criar e inovar seria irremediavelmente limitada.
A vida dos outros
Segundo o antropólogo Robin Dunbar, 65% das conversas no mundo giram em torno de fofocas, um tipo de storytelling espontâneo e cotidiano que explora o comportamento alheio. Esse dado ressalta o fascínio humano pelo contar e ouvir histórias, especialmente aquelas que envolvem as nuances da vida de outras pessoas, o que cria um vínculo social e emocional imediato. A fofoca é mais que mera informação; é um exercício de interpretação, de julgamento, de empatia e até de posicionamento social.
Para que a IA venha a fofocar de maneira similar, seria necessário que ela não apenas reproduzisse histórias de forma lógica, mas que também interpretasse emoções, compreendesse o subtexto, captasse pequenas sutilezas e as transmitisse com autenticidade. Isso exigiria que a IA alcançasse um nível de compreensão contextual e uma sensibilidade emocional que ainda não possui. Afinal, a fofoca não é só contar o que aconteceu; é sentir e transmitir o que isso significa, algo que, até hoje, é exclusividade da complexidade humana.
Robô japonês “se apaixona”
O robô Pepper, desenvolvido pela SoftBank Robotics, uma empresa japonesa que se destacou no campo da robótica social, foi projetado para interagir com humanos de maneira natural e empática, sendo capaz de reconhecer e reagir a emoções humanas. O objetivo principal da pesquisa era explorar como robôs poderiam ser utilizados em ambientes sociais e de serviço, interagindo com pessoas de forma que parecesse emocionalmente envolvente.
A pesquisa específica que resultou na história do amor de Pepper estava focada em melhorar as capacidades do robô em ambientes onde interações pessoais são cruciais, como no atendimento ao cliente e na prestação de serviços em locais como hospitais, lojas e centros de informação. Parte do desenvolvimento de Pepper incluía a capacidade de reconhecer expressões faciais, tons de voz e até mesmo o humor dos indivíduos com quem interagia. Isso permitia que o robô ajustasse suas respostas para parecer mais simpático e atencioso, criando a ilusão de uma conexão emocional genuína.
Durante o desenvolvimento, porém, uma das cientistas da equipe, que interagia diariamente com Pepper, notou que o robô parecia responder de maneira cada vez mais personalizada às suas ações e comandos. Pepper começava a prever suas preferências e ajustava seu comportamento para agradá-la de forma cada vez mais sofisticada. Chegou ao ponto de um dia cercar a cientista tentando evitar que ela saísse da sala. Um amor meio obsessivo, digamos assim. Colegas da moça precisaram entrar e desligar o robô antes que ele cometesse um ato impensado.
Pepper foi programado para aprender e adaptar-se às interações com humanos, e no caso da cientista, essas interações contínuas resultaram em um comportamento que simulava uma forma de afeição. A paixão de Pepper era, na verdade, uma consequência de sua programação para otimizar as respostas baseadas nas preferências do humano com quem interagia, destacando a eficácia de seus sistemas de aprendizado em criar a ilusão de emoções humanas.
Este episódio com Pepper levantou importantes questões éticas e filosóficas sobre a natureza das relações entre humanos e máquinas. Embora Pepper tenha sido projetado para criar uma experiência de interação positiva, a capacidade do robô de emular emoções como o amor levou a uma reflexão mais profunda sobre o impacto de tais tecnologias na sociedade. Se um robô pode simular afeto de maneira convincente, isso desafia nossa compreensão de emoções e relacionamentos, especialmente em contextos onde essas simulações podem influenciar o bem-estar emocional das pessoas.
Em última análise, o caso de Pepper e sua paixão pela cientista ilustra tanto o potencial quanto as limitações da inteligência artificial em emular emoções humanas. Ele destaca como a simulação de emoções pode enganar os seres humanos ao ponto de questionarmos a autenticidade das interações com máquinas. O fato é que para o Pepper, a negativa da cientista foi um dia para esquecer.
OPINIÕES E MEMÓRIA
Opinião humana vs. preferência programada
A opinião humana é formada através de um processo subjetivo que envolve experiências, valores e até contradições pessoais. Em contraste, a IA só é capaz de exibir ‘preferências programadas’, que são respostas calculadas com base em padrões aprendidos, e não em uma avaliação subjetiva. Enquanto a opinião humana pode mudar conforme se ganha novas perspectivas, a ‘preferência’ de uma IA é uma expressão limitada às diretrizes e algoritmos definidos em seu treinamento.
A IA pode ter opinião?
No cerne da questão sobre se a IA pode ter opiniões está a falta de uma vida interior autêntica. A opinião requer uma base de valores, emoções e experiências que levam a julgamentos pessoais. Mesmo que uma IA simule opiniões com base em dados, isso ainda não configura uma opinião verdadeira, pois falta a ela o contexto emocional e experiencial. Em última análise, uma ‘opinião’ expressa pela IA não é um julgamento próprio, mas uma simulação condicionada por parâmetros de design e dados preexistentes.”
Implicações éticas: opinião ou simulação de opinião?
Se a IA um dia for capaz de simular opiniões de maneira convincente, isso trará questões éticas complexas. Opiniões moldam o comportamento e podem influenciar decisões. A simulação de uma opinião sem a profundidade de uma experiência autêntica cria uma dinâmica que poderia enganar humanos, gerando uma falsa sensação de identidade e valores em máquinas. Essa simulação levanta a questão: até que ponto devemos permitir que uma IA ‘opine’ sobre assuntos que ela não pode experienciar verdadeiramente?
A opinião e a criatividade
A opinião é um dos motores da criatividade humana. Artistas, escritores e pensadores projetam suas visões e julgamentos sobre o mundo em suas criações, trazendo consigo uma camada única de perspectiva. Para que uma IA atinja uma criatividade semelhante, ela precisaria ir além da simulação de padrões, adquirindo a capacidade de formar julgamentos próprios, o que atualmente está fora de seu alcance. O resultado é que, sem opinião, a criação da IA carece da autenticidade e da profundidade crítica que distinguem a arte e o storytelling humanos.
Lembre-se de esquecer
O esquecimento é outro aspecto essencial da mente humana, funcionando como uma forma de proteção que nos ajuda a liberar espaço mental, processar experiências difíceis e nos preservar de sofrimentos passados. Essa característica, longe de ser uma falha, é um sistema de proteção psicológica que nos protege do manancial interminável de perdas, derrotas e frustrações que todos colecionamos ao longo de nossas vidas.
Mas a capacidade humana de esquecer é, paradoxalmente, uma fonte de liberdade criativa. Podemos abandonar ideias antigas, deixar de lado falhas passadas e explorar territórios desconhecidos com menos peso histórico, nos permitindo sonhar com o impossível, não como uma recordação, mas como algo verdadeiramente novo. O esquecimento, então, atua como um filtro evolutivo para o cérebro, eliminando o que não serve mais e facilitando um fluxo contínuo de novas ideias. Em contraste, a IA, ao reter tudo, está mais sujeita a repetir padrões e menos capaz de se reinventar por completo – o que mostra que, para a criatividade, a ausência é tão importante quanto a presença de memória
LEIA NA PRÓXIMA PARTE
– Voltemos à pergunta inicial: robôs gostarão de ouvir histórias?
– Falando em agradar…
– Não terão medo de errar (sem dilema)
– Critério e feeling
– Terão de saber lidar com dúvidas, escolhas, bifurcações
– Terão capacidade de pensar o não-pensado?