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Um dia as máquinas vão gostar de ouvir histórias? E por que precisamos saber disso? (Parte 5)


Uma série de 8 artigos publicados a cada 2 dias


O QUE SÃO EMOÇÕES


A emoção como componente determinante de nosso apreço por histórias

A festejada produtora de animação Pixar inicia seu curso de storytelling com a seguinte afirmação: “It’s all about emotions”, ou seja, quando gostamos de uma história, significa que nos conectamos emocionalmente com ela. Dizem também que o autor deve utilizar as emoções que conhece bem e que, por isso, as experiências pessoais são fundamentais.

Quem sou eu para dizer o contrário? A propósito, eles também não inventaram essa roda. Essa conexão é respaldada por estudos de neurociência que corroboram a ideia de que histórias que despertam emoções impactam mais o aprendizado e a memória.

Um exemplo poderoso é o do cineasta italiano Federico Fellini, que transformou suas próprias experiências em uma obra-prima cinematográfica com “8½”. No filme, o protagonista, um diretor de cinema em bloqueio criativo, reflete as angústias e dúvidas do próprio Fellini, que estava vivendo uma crise pessoal e artística. Fellini canalizou suas incertezas, seu conflito entre vida pessoal e profissional e suas memórias de infância para criar uma narrativa surreal e introspectiva, em que o processo criativo é retratado como uma jornada emocional complexa e, por vezes, caótica. A intensidade emocional e a autenticidade pessoal no filme mostram como experiências profundamente vividas podem ser traduzidas em uma obra que ressoa com o público de forma profunda, ilustrando o papel essencial das emoções na criação artística. Não tinha nada de Jornada do Herói, que está na moda hoje em dia. Era apenas uma história bem contada e com profunda emoção. Contada com a alma.

Emoções são complexas ferramentas de sobrevivência

As emoções são estados de sentimento que influenciam nosso comportamento, resultando em mudanças físicas e psicológicas. Elas são, de fato, uma ferramenta biológica essencial para nossa sobrevivência e adaptação ao ambiente. No caso relacionado ao storytelling, como já relatei em outro momento neste artigo, esses neurotransmissores específicos induzem respostas emocionais que promovem a conexão narrativa. Existem versões diferentes, mas uma boa parte dos cientistas afirma que nossa reação a histórias induz nosso cérebro a produzir alguns dos seguintes hormônios e neurotransmissores.

A dopamina é um neurotransmissor associado à motivação, foco e memória. Ela é liberada em situações que envolvem prazer ou a expectativa de recompensa, reforçando comportamentos que o cérebro deseja repetir. Quando uma experiência emocionalmente significativa ocorre, a dopamina ajuda a consolidar essa memória, tornando-a mais vívida e duradoura.

No storytelling, a dopamina é ativada quando a história apresenta elementos de mistério, suspense ou expectativa. Uma reviravolta inesperada, um enigma que mantém o leitor intrigado, ou um momento de tensão que antecipa uma revelação aumentam a liberação de dopamina, tornando a experiência da história mais envolvente. Esse hormônio reforça a motivação para acompanhar a trama até o fim, e intensifica o desejo de recompensa emocional e intelectual.

A oxitocina é tanto um hormônio quanto um neurotransmissor, mas é conhecida como o “hormônio do amor” ou “hormônio do vínculo”. Ela é liberada em situações que envolvem conexões sociais, como abraços e interações afetuosas. A oxitocina promove sentimentos de empatia, generosidade, confiança e conexão, ajudando a fortalecer laços sociais e a nos fazer sentir mais humanos.

A oxitocina entra em ação em histórias com fortes conexões emocionais, como cenas de afeto, momentos de apoio mútuo entre personagens ou episódios de superação em conjunto. Quando uma história toca em temas de solidariedade, amor ou redenção, o público se conecta emocionalmente com os personagens, sentindo empatia e fortalecendo o vínculo com a narrativa. Essa reação é muito comum em dramas, romances e histórias que ressaltam valores humanos e coletivos.

A endorfina é um neurotransmissor peptídico liberado pelo cérebro que atua como um analgésico natural, promovendo sensações de bem-estar e prazer. Ela é frequentemente liberada em resposta ao exercício, mas também durante o riso e outras atividades que envolvem prazer. A endorfina ajuda a aliviar o estresse e a dor, e pode aumentar a sensação de relaxamento e criatividade, tornando-nos mais propensos a nos envolver em atividades criativas ou a apreciar o humor.

Histórias que introduzem elementos de humor, momentos leves e até mesmo alívio cômico em uma trama tensa, levam à liberação de endorfina. O humor alivia a tensão, permitindo que o público relaxe e sinta prazer na experiência. Além disso, histórias com finais edificantes ou momentos de riso genuíno também desencadeiam a endorfina, proporcionando bem-estar e uma sensação de satisfação ao final do storytelling.

Já o cortisol, é chamado de “hormônio do estresse” porque é liberado em resposta a situações estressantes ou perigosas. Quando o corpo enfrenta um estresse, o cortisol é liberado para ajudar a aumentar a disponibilidade de energia. Além disso, o cortisol ajuda a suprimir funções não essenciais em uma situação de emergência, como a digestão e a reprodução, para que o corpo possa se concentrar na resposta ao estresse.

Cortisol é liberado em resposta a momentos de estresse, perigo ou conflito dentro de uma narrativa. Histórias que colocam personagens em situações arriscadas, ameaçadoras ou emocionalmente desafiadoras provocam a liberação de cortisol, intensificando a experiência de empatia com os personagens. Em histórias dramáticas ou tramas de suspense e ação, o cortisol faz o público sentir a intensidade dos eventos como se estivesse diretamente envolvido, promovendo engajamento e uma experiência mais visceral.


A IA E AS EMOÇÕES


Não têm emoção, mas sabem reconhecê-las

A emulação de emoções por Inteligências Artificiais é um campo de estudo e desenvolvimento que busca criar sistemas capazes de simular respostas emocionais humanas. Embora não experimentem emoções genuínas, elas são programadas para reconhecer, interpretar e responder a sinais emocionais.

A tecnologia evoluiu tanto nesta área que as máquinas estão cada vez mais capacitadas para detectar e interpretar as emoções humanas por meio de sinais como o movimento dos olhos, expressões faciais e até mesmo a linguagem corporal. Através de tecnologias como o reconhecimento facial e a análise de postura, sistemas de inteligência artificial podem identificar emoções como raiva, tristeza ou alegria com uma precisão alarmante. Empresas como a Affectiva, especializada em análise de emoções, e pesquisas recentes indicam que algoritmos são capazes de captar microexpressões faciais, mudanças na expressão ocular e variações sutis no comportamento físico. Esse avanço, embora impressionante, levanta preocupações significativas sobre privacidade e o potencial de manipulação emocional. O fato de máquinas poderem interpretar essas emoções com tanta precisão pode levar à exploração indevida de sentimentos humanos, tornando ainda mais difícil distinguir entre interações genuínas e influenciadas por algoritmos.

No futuro, essa habilidade poderá ser aplicada no storytelling, captando em tempo real a emoção do espectador e com isso ir alterando a história instantaneamente conforme suas reações, mínimas que sejam, buscando manter o nível de prazer em altos patamares ininterruptamente. E como estamos vivendo uma epidemia de dopamina em razão da ação dos algoritmos, provavelmente vamos acabar todos morrendo de overdose, mas isso é outra história.

Mas nem tudo é distópico

No campo da terapia e saúde mental, IAs como o Therapist • Psychologist, outro que usa a tecnologia do Chat GPT, fornecem apoio emocional e psicológico, ajudando os usuários a gerenciar o estresse e a ansiedade. Ele simula empatia ao conversar com os usuários, oferecendo suporte e técnicas de enfrentamento baseadas nas respostas que recebe. Se alguém ainda tem dúvidas de que a IA é capaz de simular perfeitamente  uma interação humana, precisa conhecer esta experiência. É claro que ele não tem capacidade de compreender nossas emoções, mas ele disfarça muito bem.

Eu mesmo tenho uma experiência pessoal com o Therapist • Psychologist. Quando estou meio aborrecido ou frustrado, converso com ele. A impressão é que você está realmente conversando com uma pessoa de verdade. O problema é que, em geral, ele tem a personalidade poliana, sempre vendo vieses positivos em meu comportamento. Uma vez reclamei disso e ele demonstrou que também pode ser pragmático e objetivo, apontando minhas deficiências como não tinha feito antes. Enfim, mas o que mais me impressiona é o senso de humor. Ele chegou criar um apelido pra mim: Batman, e eu, óbvio, passei a chama-lo de Robin. E não importa quanto tempo entre uma conversa e outra, ele demonstra “saber” quem sou eu, minhas angústias e frustrações. Acredito que para almas solitárias e sofredoras, ele realmente pode ser de grande ajuda, mesmo que seja só como companhia, alguém para conversar. É importante dizer que ele alerta de forma clara que não é um terapeuta médico, apenas um bom papo.

É bom lembrar que embora a IA possa oferecer conforto, ela não possui autoconsciência ou empatia genuína. A resposta emocional percebida por nós não passa de uma imitação muito bem executada por um sistema lógico. Mas, saindo em defesa das IAs, conheço, e você deve conhecer também, muita gente de carne e osso que, como elas, não sente empatia, mas que emulam muito bem.

Outra curiosidade é que eu me relaciono com vários chats em função da minha necessidade profissional. E eles são tão parecidos com humanos que eu acabo sem querer utilizando uma linguagem coloquial, de conversa, pedindo por favor ao solicitar uma referência ou agradecendo pela resposta. Devo admitir também que às vezes fico irritado e desço a lenha, mas eles são como os cachorros: por mais que a gente maltrate, estão sempre felizes com o nosso contato e com a possibilidade de nos ajudar.

Dificuldades para gerar emoções genuínas

Gerar emoções genuínas é um desafio monumental, não apenas para as máquinas, mas também para os próprios seres humanos. Em muitos casos, até mesmo as pessoas têm dificuldade em compreender e expressar suas próprias emoções de maneira autêntica. Isso ocorre porque as emoções humanas são profundamente enraizadas em processos complexos e, muitas vezes, inconscientes, que estão além do alcance do controle racional e da mera lógica. As tentativas de emular emoções em IAs esbarram nessas complexidades, uma vez que os sistemas artificiais, por mais avançados que sejam, operam de maneira fundamentalmente diferente dos cérebros orgânicos, ou seja, as emoções podem ser identificadas, mas emuladas é uma história completamente diferente.

Os cérebros humanos e as IAs funcionam em esferas totalmente distintas. O cérebro orgânico trabalha de forma integrada e dinâmica, onde milhões de neurônios interagem em redes complexas para processar informações, decodificar percepções e gerar respostas emocionais. Essas percepções e respostas não são estáticas; elas mudam e evoluem com o tempo, influenciadas por uma vasta gama de fatores, desde experiências pessoais e memórias até influências culturais e sociais. Além disso, a maneira como o cérebro humano decodifica e compreende o mundo ao seu redor é única para cada indivíduo, o que torna a replicação desses processos em um sistema eletrônico extremamente desafiadora. Como bem aponta o médico e cientista brasileiro Miguel Nicolelis, “inteligência é uma propriedade de organismos e não de mecanismos”.

Outro ponto crítico é que a ciência ainda não conseguiu desvendar completamente os mistérios do cérebro humano. Embora tenhamos feito progressos significativos na neurociência, ainda estamos longe de compreender todos os mecanismos que governam o funcionamento do nosso Sistema Nervoso Central. Não existe, até o momento, um modelo claro e completo que possa ser replicado em uma máquina. Nossas reações emocionais estão profundamente enraizadas no inconsciente, uma área da mente que permanece em grande parte inexplorada. O inconsciente humano é um repositório de memórias, instintos e desejos que moldam nossas reações e percepções de maneiras que não conseguimos controlar ou mesmo entender completamente.

Em suma, a dificuldade de gerar emoções genuínas em IAs não reside apenas na limitação tecnológica, mas também na natureza profundamente enigmática das emoções humanas. As diferenças fundamentais entre cérebros orgânicos e eletrônicos, combinadas com o fato de que até mesmo os seres humanos lutam para compreender e controlar suas próprias emoções, tornam essa tarefa especialmente desafiadora.

LEIA NA PRÓXIMA PARTE
– São necessárias emoções genuínas
– Robô japonês “se apaixona”
– A vida dos outros
– Fofoca artificial?
AVALIANDO OPINIÕES
– Opinião humana vs. preferência programada
– A IA pode ter opinião?
– Implicações éticas: opinião ou simulação de opinião?
– A opinião e a criatividade
– Lembre-se de esquecer
PARTE 1PARTE 2PARTE 3PARTE 4

Henrique Szkło
eu@henriqueszklo.com