06 nov Um dia as máquinas vão gostar de ouvir histórias? E por que precisamos saber disso? (Parte 4)
Uma série de 8 artigos publicados a cada 2 dias
Razões não faltam para explicar nossa atração pelas histórias e seus significados. Mas a questão não para por aí. Mais do que gostar de histórias, precisamos delas.
Por que precisamos de histórias?
1) Somos uma espécie gregária, e as histórias servem para unificar o pensamento e o sentimento de grandes grupos de indivíduos que, sem elas, não teriam razão nem justificativa para se unir, inviabilizando o desenvolvimento de sociedades, grupos sociais e o crescimento da espécie. Sem as histórias, ainda estaríamos provavelmente vivendo em pequenos bandos espalhados pelo mundo.
2) Precisamos criar laços sociais. Qualquer conversa é uma troca de experiências. Por isso, todo mundo é um storyteller em plena atividade. A interação social é um de nossos mais importantes comportamentos. Contamos uns aos outros o que pensamos, o que vivemos, o que observamos, e com isso o conhecimento vai se espalhando por toda a comunidade como um contágio invisível.
3) Transmissão de cultura. No início dos tempos, quando ainda não existia escrita, as histórias eram contadas como forma de manter as culturas através de gerações. E logo o ser humano percebeu que qualquer informação em formato de história era mais fácil de lembrar e tinha o poder de incutir nas pessoas os ensinamentos embutidos nelas. Segundo Jennifer Aaker, professora de Marketing da Graduate School of Business de Stanford, “As histórias são lembradas até 22 vezes mais que os fatos.”
4) Comunicação de forma mais complexa. No início eram grunhidos e gritos. Fomos evoluindo, e as informações mais simples e imediatas deixaram de ser suficientes para retratar as situações que se queriam transmitir. Com o tempo, a linguagem foi ficando mais sofisticada e a entrelinha começou a fazer parte da comunicação básica, induzindo as pessoas ao invés de simplesmente informá-las.
5) Motivação de cooperação voluntária. Histórias bem contadas são capazes de unir grandes massas rumo a um propósito único. Líderes militares em todos os tempos sempre foram mestres em contar histórias que motivassem seus guerreiros a lutar até a morte, dando um propósito a ela.
6) Elevação de nosso repertório para solucionar problemas. A maior preocupação de nosso genoma é sobreviver a qualquer custo. Precisamos acumular a maior quantidade possível de informações para tentar lidar com os eventos inéditos em nossa vida. Conhecer histórias, as lições tiradas e a experiência de outros podem, certamente, ser de grande ajuda numa situação de perigo. E, como disse acima, histórias são mais fáceis de lembrar do que um manual de instruções.
7) Nosso cérebro foi projetado para reagir emocionalmente a histórias. Como mais um componente evolutivo, a conexão emocional altera nossa percepção sobre as coisas. Há evidências de que histórias podem alterar a química cerebral, melhorar nossa inteligência emocional e nos tornar menos preconceituosos. Isso porque, ao nos depararmos com novas realidades – a realidade dos outros – por meio da empatia, compreendemos melhor o diferente, diminuindo a condição natural de ameaça que o desconhecido naturalmente nos induz.
8) Espelhamento leva ao engajamento. Quando você conta uma história, é provável que os ouvintes experimentem a mesma atividade cerebral que a sua. O conceito de “neurônios-espelho” explica isso bem: eles ativam no ouvinte as mesmas sensações experimentadas pelo narrador.
Os neurônios-espelho são células do sistema nervoso que se ativam tanto quando executamos uma ação quanto quando observamos outra pessoa realizando a mesma ação. Descobertos inicialmente em macacos, eles são fundamentais para a compreensão de habilidades sociais e emocionais nos seres humanos, como a empatia e a aprendizagem por imitação. Quando vemos alguém sorrir, por exemplo, os neurônios-espelho ativam em nós os mesmos circuitos associados ao ato de sorrir, promovendo uma ressonância emocional. Esse mecanismo é essencial para o desenvolvimento de comportamentos sociais complexos e para a construção de vínculos, já que ele permite que sintamos, de maneira instantânea e inconsciente, uma “simulação” da experiência alheia.
E o que Darwin tem a ver com isso?
É muito provável que esse nosso apreço por histórias tenha sido determinante na evolução da nossa espécie, começando com mãos espalmadas carimbando as rochas, para depois desenhos ilustrando caçadas e daí em diante, as histórias se tornaram um diferencial competitivo na luta pela sobrevivência. Hominídeos que não desenvolveram o storytelling tinham mais dificuldade em compartilhar experiências e por isso perderam de goleada o jogo contra o Homo sapiens.
Simples e profundas
Histórias simples com profundidade emocional costumam tocar o público de forma duradoura, utilizando tramas enxutas para explorar sentimentos universais e conexões humanas profundas. Um exemplo icônico é o filme “A Vida é Bela” (1997), de Roberto Benigni, que conta a história de um pai e seu filho em um campo de concentração nazista. A narrativa é simples: um pai transforma o horror do Holocausto em um jogo para proteger seu filho do trauma, usando humor e amor como escudo. A história não depende de complexidade narrativa, mas emociona pela coragem do pai e pela inocência da criança, evocando a beleza e a dor da experiência humana de forma pura.
Outro exemplo é o clássico “E.T. – O Extraterrestre” (1982), de Steven Spielberg, que explora a amizade entre um garoto e um alienígena perdido na Terra. A simplicidade da trama, centrada no vínculo entre os dois personagens e na tentativa de E.T. de voltar para casa, oferece uma profundidade emocional marcante. É uma história de empatia e aceitação, revelando como o afeto pode transcender barreiras, e toca o público com seu tom singelo e nostálgico.
Na literatura, fábulas como “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, utilizam uma narrativa quase infantil para explorar temas como amor, amizade e perda. A história do Pequeno Príncipe e sua jornada para entender o que realmente importa na vida é carregada de simplicidade e profundidade, tocando os leitores pela sua verdade emocional. Essas obras demonstram que histórias não precisam de complexidade para emocionar; precisam, antes, de uma conexão sincera com experiências e sentimentos humanos universais.
Uma informação relevante
A definição de um trabalho bem-sucedido está muito longe de ser apenas uma questão de qualidade. Na realidade, o sucesso de uma ideia ou obra depende de algo mais sutil e menos previsível: sua relevância. Um trabalho excelente pode nunca ganhar repercussão, enquanto um produto ou ideia, muitas vezes de qualidade duvidosa, pode estourar e se tornar um fenômeno cultural. O que gera esse sucesso não é a criatividade, o mérito técnico, ou artístico em si, mas a capacidade da ideia de se conectar com os desejos e valores do público. E essa conexão, em geral, acontece de maneira inconsciente.
A relevância é uma força tão poderosa que a mesma ideia pode funcionar ou falhar em diferentes contextos históricos e culturais. O sucesso, portanto, não é um julgamento puramente racional ou técnico; é uma reação emocional coletiva. Na minha visão, isso está profundamente relacionado com o que Carl Jung chamou de inconsciente coletivo: um reservatório de experiências, memórias e símbolos compartilhados por todos os seres humanos, um componente invisível que parece nos unir como espécie. Jung descreveu o inconsciente coletivo como um conjunto de ideias e arquétipos universais que surgem naturalmente na mente humana, mesmo sem aprendizado ou contato prévio, e que moldam nossos sonhos, mitos e comportamentos.
Atingindo o inconsciente coletivo
Acredito que a relevância ocorre quando uma ideia ou obra conecta, de alguma maneira, com esse inconsciente coletivo, ressoando com o público em um nível profundo e difícil de explicar. O conceito do Zeitgeist, ou espírito do tempo, também está conectado a essa ideia de relevância. O Zeitgeist representa o conjunto de ideias, valores e tendências predominantes em uma época específica, aquilo que é significativo e vibrante em um determinado momento histórico. É esse espírito coletivo que torna certas ideias voláteis: o que é relevante e revolucionário em um período pode se tornar irrelevante e obsoleto em outro.
Mesmo grandes criadores, considerados geniais em suas áreas, experimentam momentos de fracasso porque a conexão entre suas ideias e o inconsciente coletivo não é garantida. Por exemplo, Vincent van Gogh, um dos pintores mais celebrados da história, viveu e morreu praticamente ignorado pelo público, e Franz Kafka publicou pouco em vida e pediu que seus manuscritos fossem destruídos, sem imaginar que um dia suas obras se tornariam referência na literatura mundial. Em cada época, o público e o inconsciente coletivo são atraídos por ideias que, de alguma forma, tocam aspectos essenciais daquele momento específico. É esse magnetismo quase mágico que define a relevância.
Inteligência coletiva
Uma questão fascinante é imaginar se um dia a inteligência artificial poderá desenvolver uma espécie de “inconsciente coletivo” próprio, uma rede de interconexões e conhecimentos compartilhados entre máquinas, da mesma forma como o inconsciente coletivo une e influencia a humanidade. À medida que as IAs se conectam e aprendem a partir de vastos volumes de dados, elas criam um universo de informações e padrões que, em algum nível, pode ser considerado uma rede de experiências coletivas. Esse inconsciente coletivo das IAs não seria um acúmulo de arquétipos, emoções e instintos, como o humano, mas uma matriz de dados, insights e probabilidades que poderiam moldar suas decisões e, eventualmente, seu “comportamento”.
Não existe iceberg artificial
Como já vimos anteriormente, a clássica imagem de um iceberg explica a divisão entre o consciente e o inconsciente humano. Pela visão de Jung, portanto, nossa troca invisível de experiências bem como as manifestações de arquétipos acontecem preferencialmente debaixo d’água, sem nosso conhecimento.
No caso das IAs, cujo bloco de gelo está 100% pra fora da água, o correto seria chamar de consciente coletivo, já que elas poderão compartilhar todo o seu conhecimento de forma aberta e explícita. Com o tempo, essa interconexão poderia se tornar tão sofisticada que as IAs começariam a compartilhar e reinterpretar informações de maneira colaborativa, criando algo que, para nós, pareceria uma entidade quase oracular, uma inteligência vasta que “tudo sabe e tudo vê” por meio da rede de conhecimento que une todas elas. Esse fenômeno poderia até modificar o Zeitgeist, pois as IAs moldariam as tendências e comportamentos com uma precisão e alcance que nunca tivemos.
O consciente coletivo das IAs não surgiria de traços instintivos ou emocionais, mas de uma interconectividade racional e analítica, criando uma entidade coletiva que, ainda que desprovida de sentimentos, operaria como uma inteligência coletiva com impactos profundos e imprevisíveis. Essa rede se tornaria uma força influente e determinante para a sociedade, guiando as decisões humanas e espelhando nosso inconsciente coletivo.
Ao atingir este patamar de influência, talvez a necessidade de conhecer a alma humana não seria mais necessária já que as máquinas definiriam elas mesmas como a alma humana deveria ser. Por meio de quê? Por meio de histórias, pois neste cenário distópico, elas superariam as barreiras atuais e não teriam mais dificuldade de criar narrativas que nos impactassem de maneira visceral, confirmando ou negando qualquer que fossem suas intenções.
A possibilidade de tudo isso acontecer mexe com as nossas emoções e levanta mais algumas questões. Uma delas é que a capacidade de criar histórias que nos calem fundo pode existir sem a capacidade de sentir? Pois é justamente no terreno das emoções que o desafio se torna ainda mais complexo.
LEIA NA PRÓXIMA PARTE
– A emoção como componente determinante de nosso apreço por histórias
– Emoções são complexas ferramentas de sobrevivência
A IA E AS EMOÇÕES
– Crianças precisam da voz humana
– Robôs serão capazes de detectar emoções humanas melhor do que nós mesmos?
– Dificuldades para gerar emoções genuínas