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Um dia as máquinas vão gostar de ouvir histórias? E por que precisamos saber disso? (Parte 3)


Uma série de 8 artigos publicados a cada 2 dias


APRENDIZADO DE MÁQUINA E DE GENTE


Aprendemos como os cães

O cérebro humano, assim como o de muitos outros animais, opera em grande parte com base em um sistema de punição e recompensa que é mediado por neurotransmissores. Do ponto de vista do comportamento, quando estamos em conformidade com nossos padrões ou expectativas sociais, como contar uma piada que faz todos rirem, nosso cérebro aciona nosso sistema de recompensa, liberando uma dose de um neurotransmissor que proporciona uma sensação de prazer e satisfação, reforçando o comportamento e incentivando-nos a repeti-lo no futuro.

Por outro lado, quando fazemos algo que vai contra esses padrões ou expectativas, como contar uma piada que não faz ninguém rir, o desconforto físico que sentimos é associado a um neurotransmissor que prepara o corpo para lidar com situações que considera ameaçadoras ou desconfortáveis, causando sensações físicas desagradáveis que nos incentivam a evitar repetir aquele comportamento.

Este sistema de feedback é fundamental para o aprendizado e a adaptação Ele nos ajuda a navegar no mundo social e a entender o que é considerado aceitável ou desejável, orientando nosso comportamento para maximizar as recompensas (como prazer e aceitação social) e minimizar as punições (como desconforto e rejeição). É por isso que chamo estes elementos fisiológicos de Hormônios Disciplinares. Vou detalhar cada um deles mais a frente.

Além dos humanos, muitos animais, também respondem a esse sistema de punição e recompensa. Isso é evidente no treinamento de cães, onde comportamentos desejados são recompensados com petiscos ou carinho, enquanto comportamentos indesejados são desencorajados por meio de correções.

Aprender ou decorar?

Embora o sistema de recompensa e punição funcione bem para o aprendizado humano, as máquinas utilizam um mecanismo diferente, conhecido como aprendizado profundo (deep learning), uma subcategoria do aprendizado de máquina que utiliza redes neurais artificiais compostas por múltiplas camadas (daí o termo “profundo”). Essas redes neurais são inspiradas na estrutura e funcionamento do cérebro humano.

No aprendizado profundo, as redes neurais aprendem automaticamente representações hierárquicas dos dados, desde as características mais básicas até as mais complexas, sem a necessidade de intervenção humana. Isso é especialmente eficaz em tarefas complexas como reconhecimento de imagens, processamento de linguagem natural e geração de texto.

O aprendizado de máquina está revolucionando a indústria criativa ao permitir que artistas, músicos e roteiristas explorem novas formas de criação e co-criem com a tecnologia. Ferramentas como GANs ajudam a transformar esboços em paisagens detalhadas, enquanto modelos como MuseNet e Jukedeck permitem gerar músicas originais rapidamente. No cinema e na publicidade, IA como MidJourney cria imagens visuais a partir de descrições textuais, e deepfakes rejuvenescem ou substituem rostos de atores. Em games, diálogos dinâmicos e histórias interativas são possíveis com ChatGPT e AI Dungeon, proporcionando experiências imersivas e personalizadas para os jogadores. Independentemente de qualquer crítica que se possa fazer à inteligência artificial, é fato que ela amplia as possibilidades da criatividade humana e traz novas formas de experimentação e produção na arte, música e storytelling.

Conseguem ou não?

Já existem máquinas com inteligência artificial que conseguem pintar, compor música, escrever artigos e criar histórias. Mas isso não é difícil, garanto. Já vi até um elefante pintando com sua tromba. Difícil é criar uma pintura extraordinária, compor uma música memorável ou criar histórias de tirar o fôlego. Isso elas não fazem. Alguns mais excitados garantem que um dia elas serão capazes de criar qualquer coisa, como nós. Acredito que sim, mas tenho a impressão de que ainda vai demorar algum tempo. Mas o que significa “demorar um pouco” nos dias de hoje? Eis a questão.

Mas a coisa não está avançando a passos de elefante, ao contrário. Exemplos práticos mostram como a IA já está influenciando a arte. Nos últimos anos, algumas obras criadas por inteligência artificial geraram grande impacto, tanto pelo mérito técnico quanto pelas discussões sobre originalidade e valor artístico.

“Portrait of Edmond de Belamy” (2018) – Criado por um modelo de inteligência artificial desenvolvido pelo coletivo francês Obvious, o quadro é uma mistura de características visuais típicas dos retratos clássicos, mas com detalhes distorcidos e borrados que remetem ao processamento de algoritmos. A obra foi leiloada por mais de US$ 430.000 na Christie’s, um marco que trouxe visibilidade à arte gerada por IA e levantou questões sobre valor, autoria e o que define uma obra de arte.

“AICAN” (AI Creative Adversarial Network) – Criada pelo Dr. Ahmed Elgammal e sua equipe, AICAN é uma rede neural treinada para gerar imagens que lembram estilos artísticos conhecidos, mas com um toque de originalidade. As obras geradas pela AICAN foram expostas em galerias de arte e comparadas à produção de artistas humanos contemporâneos, o que gerou debates sobre a capacidade da IA de intuir estilos novos e a autenticidade dessa expressão artística.

“DeepDream” – O projeto da Google, lançado em 2015, usa redes neurais convolucionais para realçar e distorcer padrões em imagens, criando visuais alucinógenos e oníricos. Muitas das obras criadas com o DeepDream têm uma aparência surreal e até perturbadora, com rostos, olhos e formas animalescas surgindo de maneira abstrata. Essa estética singular inspirou artistas digitais e trouxe à tona a possibilidade de criar arte única através de percepções artificiais da IA.

“The Next Rembrandt” (2016) – Essa iniciativa reproduziu o estilo de Rembrandt ao treinar uma IA com técnicas de aprendizado profundo em suas obras. A IA foi programada para criar um retrato original como se fosse pintado pelo próprio Rembrandt. O projeto foi exibido como uma homenagem ao mestre holandês, suscitando discussões sobre o papel da IA em preservar, replicar e reinterpretar estilos históricos, assim como sobre a fronteira entre homenagem e autenticidade.

“Memories of Passersby I” (2019) – Criada pelo artista alemão Mario Klingemann, essa instalação usa uma rede adversarial generativa (GAN) para produzir retratos humanos que nunca existiram, em tempo real. A máquina gera rostos que vão se transformando aos poucos, sem repetição. Exibida na galeria de arte londrina Sotheby’s, essa obra foi elogiada por sua inovação e criticada por desafiar os limites da criatividade, uma vez que seu criador é a própria IA que não possui memória nem referências emocionais.

Esses exemplos mostram como a arte gerada por IA tem desafiado o conceito de autoria e autenticidade, abrindo novas possibilidades e, ao mesmo tempo, gerando polêmicas sobre o valor emocional e humano da criação artística. Cada obra avança, de algum modo, nos limites do que chamamos de arte e convida o público a reconsiderar onde a intuição humana termina e a inovação artificial começa.

A inteligência artificial somos nós

Ao buscar referências sem espírito crítico, a IA acaba produzindo vieses preocupantes. No aprendizado humano, o sistema de punição e recompensa reforça comportamentos sociais desejáveis e desencoraja ações consideradas inadequadas, promovendo a conformidade com normas e expectativas culturais. A inteligência artificial absorve e reproduz esses padrões sociais a partir dos dados com que é treinada, resultando em vieses algorítmicos que refletem — e muitas vezes reforçam — estereótipos culturais preexistentes. Esses vieses algorítmicos, mais difíceis de identificar e corrigir, podem reproduzir sem questionamento os padrões presentes na sociedade, intensificando ou perpetuando normas e preconceitos sociais. Por isso, é preciso distinguir entre conteúdos humanos intencionais, como nossas preferências e valores, e os conteúdos incorporados na IA através dos dados de treinamento.

O site Rest of World analisou 3.000 imagens geradas por IA de diferentes países e culturas e descobriu que elas retratam o mundo de uma forma profundamente estereotipada. Não há surpresas, mas essa peça visual mostra claramente como os preconceitos estão profundamente arraigados nos sistemas de IA.


STORYTELLING É OUTRA HISTÓRIA


Os limites impostos pela lógica

Não sei se você reparou, mas todos os exemplos acima são baseados em artes visuais, que é uma área muito mais livre, digamos assim. Artistas visuais podem produzir praticamente qualquer coisa: desde narrativas estruturadas até obras que apresentem completa ausência de lógica ou sentido e, ainda assim, encontrar ressonância no público. Já um contador de histórias precisa seguir uma série de regras rígidas para que sua narrativa seja, em primeiro lugar, entendida. E depois, caso seja bem construída, apreciada. Ou seja, quem conta uma história precisa usar uma língua (ou códigos reconhecidos), precisa apresentar uma sequência lógica e criar um arco, com começo, meio e fim. Isso é muito diferente do que pintar um quadro, por exemplo. Não é mais ou menos importante, apenas exige um embate muito maior com os limites. E nesta área, a IA ainda está devendo originalidade.

A lógica sozinha não produz boas histórias

Embora máquinas possam estruturar narrativas com base em processos congruentes, falta-lhes a intuição e a sensibilidade emocional necessárias para criar algo que ressoe profundamente com os humanos. O que ela faz, por enquanto, é estruturar o processo generativo utilizando como referência o que já foi feito. É claro que esse é o processo humano também. Só que os grandes contadores de história vão muito além disso. As informações, fatos e pensamentos lógicos são muito importantes, mas isoladamente não têm o mesmo impacto em nosso cérebro do que uma história bem contada.

Boas histórias, portanto, não são simplesmente sequências lógicas de eventos, mas combinações complexas de sentimentos, contextos e experiências. A criatividade humana frequentemente desafia a lógica, e é isso o que permite que histórias tenham um impacto emocional duradouro.

Um exemplo interessante é a série de histórias criadas pelo modelo de linguagem GPT, que, apesar de sua habilidade em gerar narrativas coerentes e logicamente bem estruturadas, frequentemente resulta em histórias que falham em criar conexão emocional. Por exemplo, ao tentar escrever um conto de mistério, o GPT pode organizar a trama e as reviravoltas de forma lógica e convincente, mas os personagens carecem de profundidade emocional. Eles se movem pela história de modo previsível, sem a complexidade psicológica ou nuances sutis que fariam o leitor se importar genuinamente com seu destino.

Em contraste, por exemplo, o romance Crime e Castigo de Dostoiévski explora a tortuosa jornada psicológica de Raskólnikov após cometer um assassinato, em uma narrativa que provoca profunda reflexão sobre moralidade, culpa e redenção. O romance envolve o leitor porque captura a angústia e o conflito interno do protagonista com uma intensidade humana que ultrapassa a lógica. É justamente essa capacidade de explorar nuances psicológicas e existenciais que muitas histórias criadas por IA ainda não conseguem reproduzir, deixando-as tecnicamente bem executadas, mas emocionalmente distantes, portanto, mais difíceis de gostar.

Por que nós, humanos, gostamos de ouvir histórias?

As razões são diversas, mas posso selecionar algumas que considero fundamentais para explicar nosso apreço por essa forma tão especial de comunicação humana:

1) Ouvir histórias é um processo de aprendizagem. Aprendemos por metáforas, por associações. E boas histórias estão recheadas das duas coisas.

2) As histórias organizam nosso pensamento. Como nossa mente é um cavalo selvagem dentro de uma gaiola de passarinho, os pensamentos se sobrepõem formando um emaranhado de conceitos. Uma história com a qual nos conectamos e nos identificamos, não nos traz simplesmente novas informações ou emoções, mas organiza, resume e simplifica algum sentimento que conseguiríamos produzir facilmente se nossa mente não fosse a confusão que é.

3) Histórias carregam identificação e empatia. Nos enxergamos nas histórias. Vemos nossa capacidade (ou falta de) para enfrentar os obstáculos da vida. Nos deparamos com possibilidades e limitações da espécie humana. Histórias nos oferecem a possibilidade de enxergarmos nosso paraíso e nosso inferno. E isso nos ajuda a enfrentar a explosão emocional que é a vida.

4) Compartilhamos emoções com os personagens: amor, raiva, inveja, carinho, alegria, etc. Isso acontece porque, por um processo cerebral, espelhamos as emoções que vemos representadas nas histórias. Torcemos ou somos contra os personagens. Mas não por eles. Por nós mesmos. É uma espécie de egoísmo emocional.

5) Simulamos experiências intensas sem as ter vivido efetivamente. Viajamos pelo mundo de possibilidades que a vida pode nos proporcionar, mesmo sem nossa presença física, ou seja, não pagamos o preço que o protagonismo na vida nos cobra. Lidamos com desafios, caminhamos em jornadas épicas, amamos, enfrentamos inimigos poderosos, tudo sem sair do conforto de sermos apenas observadores distantes e protegidos. Também sofremos, é verdade. Mas as histórias mais apreciadas sempre terminam com algum tipo de redenção, de volta por cima, de superação.

6) Representamos conceitos de forma lúdica. É a famosa moral da história. Toda boa história tem uma mensagem que, mesmo sem a percebermos, trabalha em nosso inconsciente, formando um arcabouço de crenças relacionadas às lições recebidas. Chapeuzinho Vermelho ensina que as crianças não devem falar com estranhos. E, na minha opinião, serve também para mostrar às crianças a importância de se desenvolver a capacidade de observação para que elas consigam facilmente reconhecer a diferença entre uma avó e um lobo.

7) Religiões, mitos e rituais têm ao longo dos milênios ajudado o ser humano a se confortar com a natureza em sua dinâmica feroz. O que não entendemos nos provoca um sentimento de profunda insegurança e ansiedade, principalmente no que diz respeito aos mistérios insondáveis da vida. As boas histórias contadas utilizando o fantástico, o místico, o divino, o espírito sagrado, têm o poder de aliviar nossas tensões ao nos dar respostas para nossas aflições e sugerir propósitos para nossa vida. Mostram, ao mesmo tempo, nossa pequenez e grandiosidade.

LEIA NA PRÓXIMA PARTE
– Por que precisamos de histórias?
– E o que Darwin tem a ver com isso?
– Simples e profundas
– Uma informação relevante
– Atingindo o inconsciente coletivo
– Inteligência coletiva
PARTE 1PARTE 2PARTE 4

Henrique Szkło
eu@henriqueszklo.com