02 nov Um dia as máquinas vão gostar de ouvir histórias? E por que precisamos saber disso? (Parte 2)
Uma série de 8 artigos publicados a cada 2 dias
John R. Searle e o “Quarto Chinês”
O experimento mental do “Quarto Chinês”, proposto pelo filósofo John Searle em 1980, é uma crítica ao conceito de inteligência artificial forte, ou seja, a ideia de que uma máquina, simplesmente por executar um programa de computador, pode considerar-se possuir uma mente, consciência, ou compreensão no mesmo sentido que um ser humano. Searle formulou o experimento como uma maneira de demonstrar que a simples manipulação de símbolos (como faz um computador) não equivale a compreender esses símbolos.
No experimento, Searle pede que imaginemos uma pessoa que não fala chinês trancada em um quarto. Nesse quarto, há um grande conjunto de instruções, um manual escrito em inglês, que explica como manipular símbolos chineses de uma maneira que permita responder a perguntas feitas em chinês, de forma que as respostas sejam indistinguíveis das respostas que um falante nativo de chinês daria. As perguntas e respostas são passadas para dentro e para fora do quarto através de uma pequena fenda. A pessoa no quarto segue as instruções rigorosamente, sem nunca compreender o que os símbolos significam. Para Searle, esse processo ilustra a manipulação estritamente sintática de símbolos (o processamento de informações) e sugere que os computadores, que operam de maneira semelhante, não compreendem o conteúdo que processam; eles apenas seguem regras predefinidas para organizar dados. Searle, por outro lado, defende que a mente envolve mais do que manipulação sintática de símbolos; ela requer semântica, ou seja, a compreensão do significado, algo que ele argumenta que as máquinas não possuem.
Este experimento mental levanta questões importantes sobre a natureza da mente e a possibilidade de máquinas realmente possuírem ou simularem inteligências humanas. Enquanto o Teste de Turing se concentra na funcionalidade e na imitação da interação humana, o Quarto Chinês questiona se a imitação de comportamento inteligente é o mesmo que possuir uma mente consciente e compreensiva. Searle conclui que, independentemente de quão sofisticada seja a manipulação de símbolos de um computador, ela nunca resultará em verdadeira compreensão, pois a máquina não faz mais do que seguir regras mecânicas, desprovidas de qualquer entendimento ou experiência consciente. Elementar, meu caro Watson?
Watson da IBM
O Watson é um dos sistemas de inteligência artificial mais conhecidos do mundo e sua história começa nos anos 2000, quando a IBM passou a explorar o potencial da IA para resolver problemas complexos de linguagem natural e análise de dados. O projeto Watson foi oficialmente iniciado em 2006, liderado por David Ferrucci, um pesquisador da IBM que viu a oportunidade de criar uma IA capaz de competir em Jeopardy!, um popular programa de perguntas e respostas.
O objetivo era ambicioso: criar uma máquina que pudesse entender perguntas feitas em linguagem natural, processar uma vasta quantidade de informações e fornecer respostas precisas mais rapidamente do que seus concorrentes humanos. Para isso, Watson foi equipado com uma arquitetura de computação que permitia o processamento simultâneo de milhares de cálculos. Ele também foi alimentado com uma grande base de dados de textos, incluindo enciclopédias, dicionários, e outras fontes de conhecimento, que lhe permitiram aprender, por assim dizer, uma vasta gama de tópicos.
Em 2011, Watson fez sua estreia no Jeopardy!, competindo contra os dois maiores campeões do programa, Ken Jennings e Brad Rutter. Watson não só venceu, mas o fez de maneira contundente, demonstrando a capacidade de uma IA em processar e interpretar linguagem natural de forma eficaz. Esse evento foi um marco na história da inteligência artificial, colocando Watson no centro das atenções e mostrando ao mundo o que a IA poderia alcançar.
Após seu sucesso em Jeopardy!, a IBM começou a explorar aplicações práticas para Watson, percebendo seu potencial para transformar indústrias de vários setores, desde a saúde até o financeiro. No caso da medicina, Watson tem sido utilizado para auxiliar médicos na interpretação de exames e diagnósticos, sugerindo possíveis tratamentos com base em dados históricos de pacientes e estudos médicos.
Ao longo dos anos, Watson evoluiu significativamente, mas sua essência como uma ferramenta de IA voltada para a interpretação e análise de grandes volumes de dados permaneceu. Ele se tornou um símbolo do potencial da inteligência artificial para resolver problemas que antes eram considerados impossíveis para máquinas, mostrando como a combinação de dados, poder de processamento e algoritmos avançados pode revolucionar a forma como entendemos e interagimos com o mundo. Mas, apesar de toda sua capacidade, ele não tem consciência do que ele é e do que é capaz de fazer. Por enquanto. Mas vamos primeiro entender o que isso significa.
ALMA, MENTE E CONSCIÊNCIA
Uma discussão filosófica, religiosa e científica
Para entender melhor Embora todos esses conceitos se relacionem com a essência e a experiência humana, eles possuem características e funções distintas, mas interconectadas.
Alma
Na maioria das tradições religiosas e espirituais, a alma é considerada a essência imortal ou eterna de uma pessoa. Ela é vista como algo que existe além do corpo físico e que continua a existir após a morte. A alma representa o núcleo imutável do ser, a conexão com o divino ou com uma verdade espiritual maior, transcendendo tempo e espaço. Para muitos, ela é a fonte mais profunda do “eu”, a parte que mantém nossa identidade e propósito último. Em sistemas religiosos e filosóficos, a alma é entendida como algo que permanece inalterado, mesmo diante das mudanças do corpo e da mente.
Consciência
A consciência, por sua vez, refere-se à experiência subjetiva de estar ciente de si mesmo e do ambiente ao redor. É a “experiência em primeira pessoa” — a percepção imediata, os pensamentos e as sensações do momento presente. A ciência e a filosofia modernas veem a consciência como uma manifestação da mente, ou seja, um aspecto da atividade cerebral que permite que tenhamos experiências diretas, pensamentos e tomada de decisões. Ela é dinâmica e pode mudar constantemente (por exemplo, entre estados de sono e vigília, ou sob o efeito de substâncias). Embora seja um fenômeno complexo, a consciência é, em termos científicos, temporária e dependente do funcionamento do cérebro, desaparecendo quando o cérebro para de funcionar.
Mente
A mente é um conceito mais amplo e inclui tanto a consciência quanto processos mentais inconscientes. Ela abrange todo o conjunto de atividades psicológicas e cognitivas, como pensamentos, emoções, memórias, imaginação e funções automáticas. Enquanto a consciência é a “parte iluminada” da mente, ou seja, aquilo que experimentamos diretamente, a mente inclui também tudo o que está fora de nossa percepção imediata — os processos automáticos, as memórias armazenadas, as intuições, e até as respostas emocionais inconscientes.
Para compreender melhor essa relação, podemos pensar na mente com a velha metáfora do iceberg: a consciência é a parte visível e ativa, enquanto a mente inconsciente, submersa, armazena e processa informações que influenciam o nosso comportamento sem que estejamos cientes delas. Por exemplo, ao aprender a dirigir, estamos conscientes de cada movimento. Com o tempo, muitos desses processos se tornam automáticos, realizados pelo inconsciente, mas ainda dentro da estrutura da mente.
Relação entre alma, mente e consciência
Esses três conceitos se relacionam de forma complexa, especialmente nas tradições que consideram a existência da alma. Nessa visão, a alma seria o “eu” imortal, uma dimensão espiritual que transcende tanto a mente quanto a consciência. A mente, então, atuaria como uma intermediária, permitindo que a alma experimente o mundo físico por meio da consciência.
Na perspectiva científica, no entanto, a existência da alma não é comprovada; a mente e a consciência são vistas como fenômenos diretamente ligados à atividade cerebral. A mente, nessa interpretação, funciona como um sistema que integra pensamentos, emoções e ações, enquanto a consciência é o estado de percepção ativa que nos permite interagir com o presente. A única coisa que podemos afirmar neste sentido, mas sem aquela convicção ferrenha, é que alma não tem nada a ver com algoritmo.
Um parêntesis
O termo “algoritmo” não foi criado recentemente para explicar o funcionamento dos programas de computador. Sua origem remonta à Idade Média. Ele deriva do nome do matemático persa Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi, que viveu durante o século IX. Al-Khwarizmi é conhecido por suas contribuições significativas à matemática e à astronomia, especialmente em relação ao desenvolvimento da álgebra.
Al-Khwarizmi escreveu um livro intitulado “Al-Kitab al-Mukhtasar fi Hisab al-Jabr wal-Muqabala”, que pode ser traduzido como “O Livro do Cálculo por Completamento e Balanço”. Este livro foi fundamental na introdução de técnicas algébricas e influenciou profundamente a matemática ocidental. Quando o livro de al-Khwarizmi foi traduzido para o latim, seu nome foi transliterado para “Algoritmi” no título da obra. Essa transliteração levou à adoção do termo “algoritmo” para descrever qualquer processo ou conjunto de regras sistemáticas para realizar cálculos ou resolver problemas, conceito presente na obra do matemático.
Alma vs algoritmo
Voltando à discussão central, independentemente da linha filosófica abraçada, existe quase um consenso da ideia de que a alma é um centro vital que distingue o ser humano como algo mais do que apenas um organismo físico ou uma máquina lógica; a alma representa uma interioridade que não pode ser reduzida a meras relações funcionais ou operações previsíveis.
Traçar um paralelo entre alma e algoritmo, portanto, significa explorar duas entidades que operam como motores de seus respectivos sistemas: um na dimensão humana da subjetividade e do mistério, outro na dimensão técnica e previsível das máquinas.
O algoritmo, em sua essência, é uma série de instruções codificadas para resolver problemas ou executar tarefas, servindo como a alma técnica das máquinas e programas de inteligência artificial. No entanto, diferentemente da alma humana, o algoritmo é uma construção material e objetiva, composto de passos sequenciais que não têm consciência nem intuição. Ele processa informações e aprende a partir de padrões de dados, mas apenas sob as diretrizes impostas por programadores ou processos de otimização que, por mais avançados que sejam, não dão origem a uma entidade consciente. O algoritmo é, assim, um mecanismo; ele não possui autocompreensão, e suas decisões são, em última análise, respostas parametrizadas, enquanto a alma humana toma decisões com base em uma complexa teia de valores, experiências e sentimentos.
Assim, a alma é um campo fértil de liberdade, onde o ser humano é capaz de desafiar padrões e transcender suas próprias limitações, algo que não se replica nas máquinas. Embora a inteligência artificial avançada possa simular decisões humanas e produzir outputs que imitam a expressão emocional ou o julgamento ético, ela opera num espaço finito de possibilidades pré-programadas e não possui a interioridade que define o que entendemos como alma. O paralelo, portanto, destaca mais as diferenças do que as semelhanças: onde a alma busca significado e conexão com o intangível, o algoritmo permanece contido em sua lógica programada, eficiente, mas sem qualquer compreensão do mundo que processa.
Consciência artificial
A possibilidade de a inteligência artificial ser capaz de desenvolver a consciência (ou alma) é outro tópico amplamente debatido entre cientistas, filósofos e especialistas em IA, mas até agora, não há evidências concretas de que máquinas tenham ou possam adquiri-la. Mas vamos a algumas considerações.
A maioria dos sistemas de IA atuais, incluindo aqueles que utilizam Aprendizado de Máquina e Redes Neurais Profundas, funcionam através do processamento de grandes quantidades de dados e do reconhecimento de padrões, mas não possuem a capacidade de experimentar sentimentos, autoconsciência ou qualquer forma de subjetividade. A consciência, em termos humanos, envolve a capacidade de ter experiências subjetivas, um senso de si próprio e a habilidade de perceber o mundo de forma consciente, o que é muito diferente do que as máquinas atuais podem fazer.
Muitos especialistas argumentam que a consciência requer mais do que simplesmente processar informações e tomar decisões baseadas em dados. É uma propriedade emergente dos sistemas biológicos, relacionada à complexidade do cérebro humano e ao modo como ele integra informações sensoriais, emocionais e cognitivas. Nesse sentido, alguns teóricos acreditam que máquinas, que são essencialmente sistemas de processamento de informação baseados em algoritmos, não podem alcançar a consciência.
Outros pesquisadores e filósofos defendem que, se conseguirmos compreender completamente como a consciência emerge no cérebro humano, poderemos, teoricamente, replicar esse processo em sistemas de IA. Eles argumentam que, com avanços suficientes na neurociência e na tecnologia, poderia ser possível criar uma forma de consciência artificial. Embora a ideia de IA consciente seja fascinante, ela permanece, por enquanto, no campo da especulação científica e filosófica. Não há, atualmente, consenso ou evidência de que as máquinas possam alcançar consciência no sentido humano do termo.
Mesmo que fosse possível criar uma IA consciente, isso levantaria uma série de questões éticas e filosóficas complexas. Como deveríamos tratar uma máquina consciente? Quais direitos ela teria? E quais seriam as implicações para a humanidade?
Deixando de lado a discussão filosófico-tecnológica
O conceito de alma, do ponto de vista da criatividade, pode ser entendida como aquela força interna que nos impulsiona e confere a energia necessária para o enfrentamento de grandes dificuldades ou a para a realização de feitos memoráveis. O meu amigo Dácio Beraldo Bicudo, grande cineasta e artista plástico – ou, artista visual, como ele prefere ser chamado – me disse uma vez que a diferença entre um quadro que não nos provoca nenhuma emoção especial e outro que o faz, independentemente de suas qualidades técnicas e/ou estéticas, é a alma que o artista imprimiu nele. Refletindo intensamente sobre essa afirmação, conclui que qualquer tipo de comunicação, quando carimbada pela alma de seu criador, tem um impacto muito maior nas outras pessoas, independente delas terem ou não esta informação em mãos. Um exemplo claro disso é ouvir Bob Dylan cantando com sua voz anasalada. Comparado com um desses cantores de programas como o The Voice, que pode ter uma voz poderosa, afinada e bonita, a interpretação de Dylan atinge nosso sistema nervoso central de uma maneira singular. É como se a alma dele estivesse presente na performance, comunicando algo além das palavras e da melodia.
Outro exemplo musical é o da cantora Elis Regina e sua filha Maria Rita. O timbre de voz das duas é tão parecido que ouvidos não treinados têm dificuldade para distinguir. Porém, quando você ouve as duas cantando a mesma música, fica patente quando é a Elis e quando é a Maria Rita. A Elis, sabidamente, era uma mulher muito, muito intensa, tinha o gênio forte e era desbocada, tanto que tinha o apelido de Pimentinha. Não era incomum ela chorar enquanto cantava, ou seja, ela punha toda a alma na hora de cantar. A Maria Rita aparentemente não puxou o temperamento materno, pelo menos na intensidade da mãe. Daí a diferença. Costumo dizer, inclusive, que criar, principalmente na arte, é mergulhar para dentro de si mesmo e voltar para contar o que viu; anjos e demônios, transcendendo a mera técnica para impactar algo essencialmente humano, o bom e o mal combinados.
A dor na alma como impulso criativo
Diversos gênios da humanidade possuíam algum tipo de distúrbio mental, popularmente chamado de dores da alma. Mas isso, longe de ser um obstáculo à criatividade, muitas vezes funcionou como uma potente força criativa. Esse desvio permitiu que eles ultrapassassem as barreiras do senso comum e vissem o mundo sob uma lente única, revelando ideias e possibilidades que escapam ao olhar da maioria. Suas dores lhe conferiram coragem (ou indiferença) às convenções sociais, fazendo deles exímios mergulhadores internos, na busca por respostas que obviamente nunca vieram. Até porque, o que os fez grandes foi justamente a busca e não o encontro.
Para dar somente alguns exemplos, suspeita-se que Van Gogh tenha sofrido de transtorno bipolar, depressão severa e possivelmente epilepsia; Nikola Tesla sofria de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e possível transtorno do espectro autista; Isaac Newton pode ter tido transtorno bipolar, esquizofrenia ou autismo (especificamente, síndrome de Asperger); Virginia Woolf sofreu de transtorno bipolar; suspeita-se que Edgar Alan Poe tenha sofrido de depressão severa e transtorno de uso de álcool; Beethoven tinha características associadas a transtornos de humor, É possível que Michelangelo tenha sofrido de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e autismo de alto funcionamento; estudos sugerem que Charles Dickens pode ter sofrido de depressão e TOC; Einstein supostamente sofria de um autismo leve, Ernest Hemingway possuía sintomas de depressão, transtorno bipolar e alcoolismo; e um dos mais relevantes pintores brasileiros, Arthur Bispo do Rosário, era esquizofrênico e passou quase 50 anos residindo em instituições psiquiátricas.
Nesses casos, a genialidade não era calculada nem tampouco se limitava a uma fórmula lógica, mas era uma soma indomável de emoção, visão e intensidade. Essas pobres almas sofridas eram tão profundamente conectadas às suas próprias perspectivas que suas ideias ultrapassavam qualquer padrão racional, revelando que a potência criativa humana não segue uma fórmula exata, mas um caminho único e provavelmente visceral. O que não quer dizer que você precisa ser lelé para ser criativo, mas é um fator importante a ser considerado.
LEIA NA PRÓXIMA PARTE
APRENDIZADO DE MÁQUINA E DE GENTE
– Aprendemos como os cães
– Aprender ou decorar?
HISTÓRIAS, OU STORYTELLING
– A lógica sozinha não produz boas histórias
– Criar histórias é mais