31 out Um dia as máquinas vão gostar de ouvir histórias? E por que precisamos saber disso? (Parte 1)
Uma série de 8 artigos publicados a cada 2 dias
“Somos, como espécie, viciados em história. Mesmo quando o corpo dorme, a mente permanece acordada a noite toda, contando histórias para si mesma.” – Jonathan Gottschall
A provocação do título, que pode suscitar dúvidas sobre sua validade, na realidade, faz muito sentido conforme detalho em minha reflexões que você pode ler a seguir. Por que perguntar se a IA vai gostar de ouvir histórias se o que se queremos saber mesmo é se ela vai saber criar histórias? Bem, em primeiro lugar, basta observar o mundo atual para saber que sim, elas já são capazes de criar histórias. Porém, a fustigação intelectual se estabelece em outro terreno. Acredito que, para ser capaz de criar histórias relevantes e realmente poderosas, não é necessário apenas produzir um patchwork de conceitos bem-sucedidos, mas sim trabalhar na coisa que o ser humano mais sabe: manipular o caos e a imperfeição tentando dar algum sentido original para o caldo emocional que a todos aflige.
Não acredito que sejamos capazes de realizar qualquer coisa no mais alto nível se não tivermos uma conexão emocional com a atividade em si. Para cozinhar além do trivial é preciso gostar de comer. Para ser um jogador de futebol extraclasse é preciso gostar de futebol. Então, pela lógica, para ser um grande contador de histórias é fundamental que se goste delas. Por outro lado, um dia as máquinas serão capazes de produzir enredos realmente relevantes mesmo sem possuírem sentimentos, como o gostar?
E, por trás de toda essa discussão está, na verdade, a questão que mais me interessa: a IA pode algum dia se tornar verdadeiramente criativa? Reformulando: A IA já pode ser considerada criativa?
O QUE É CRIATIVIDADE
Ter ideias é a coisa mais fácil do mundo
A criatividade é uma característica única da nossa espécie, uma habilidade de percepção e ação que transcende a simples geração de ideias. Gerar ideias é a parte mais fácil — é algo que se desenrola como resultado da associação de conceitos e imagens, algo que qualquer pessoa, e até uma IA, pode fazer. Aliás, ter ideias não significa criar. O que define a criatividade real não é apenas esse fluxo de ideias, mas a capacidade de enxergar valor e potencial onde os outros veem apenas associações comuns ou desconexas.
Criatividade é, portanto, a habilidade de encontrar soluções e explorar alternativas de forma inovadora e significativa, indo além da superfície para descobrir novas possibilidades. Isso exige uma capacidade aguçada de percepção para identificar quais ideias, em meio ao grande fluxo de pensamentos, têm potencial para se transformar em soluções.
Mais do que uma habilidade cognitiva, ser criativo também é lidar com uma dimensão psicológica e emocional complexa: nosso cérebro é biologicamente resistente ao novo, e há uma resposta interna de desconforto ao que desafia o status quo. Além disso, a resistência não é apenas interna; as outras pessoas, por um instinto de preservação social, tendem a repelir ou desvalorizar o que é novo, estranho ou desafiador.
A criatividade, então, é tanto uma habilidade quanto um desafio comportamental e psicológico, pois exige do indivíduo não só a geração de ideias, mas a superação das barreiras internas e sociais que limitam a inovação. Mas não há escapatória; a criatividade é uma força evolutiva que nos faz expandir nossas percepções e, assim, torna possível o surgimento de avanços que nos impulsionam como espécie. Sem criatividade, sem evolução.
Esse processo, em sua essência, não se trata de um dom ou talento exclusivo, mas de um comportamento cultivável que exige coragem, flexibilidade mental e uma disposição para navegar em territórios desconhecidos, resistindo ao impulso natural de retornar ao que é familiar. A criatividade é, assim, uma poderosa ferramenta de adaptação e um comportamento intencional, que permite ao ser humano transformar o potencial de ideias em realizações que antes eram inimagináveis.
O QUE É INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Em primeiro lugar, inteligência é o quê?
Foi a inteligência, a capacidade de pensar racionalmente, que nos defenestrou da vida selvagem e nos permitiu construir civilizações complexas. No entanto, inteligência não se resume a acumular informações ou realizar cálculos com rapidez. A verdadeira inteligência reside na habilidade de saber o que fazer com essas informações: conectá-las de maneira criativa e inovadora para gerar novas ideias, novas realidades e novas visões de mundo. É a capacidade de ver além dos dados brutos, de transformar conhecimento em compreensão profunda e de usar essa compreensão para moldar e reinterpretar o mundo ao nosso redor. Isso é o que distingue a inteligência que impulsiona o progresso humano da mera habilidade técnica ou memorização.
E Inteligência Artificial, é o quê?
Inteligência Artificial (IA) é uma área da ciência da computação que se dedica a desenvolver sistemas e algoritmos capazes de realizar tarefas que normalmente requerem inteligência humana. Isso inclui reconhecer padrões, tomar decisões, resolver problemas, entender e gerar linguagem, e até aprender com experiências anteriores. A IA funciona através de técnicas como aprendizado de máquina, onde algoritmos analisam grandes quantidades de dados para identificar padrões e melhorar seu desempenho com o tempo. Em essência, a IA permite que máquinas simulem processos de pensamento e adaptação, automatizando tarefas e auxiliando em áreas como diagnóstico médico, recomendação de conteúdo, tradução automática, e até criação de arte e textos.
IA generativa
IA generativa é um ramo da Inteligência Artificial que se especializa na criação de novos conteúdos, como imagens, textos, músicas ou vídeos, a partir de dados existentes. Diferente de sistemas de IA que apenas analisam ou classificam informações, as IA generativas usam modelos avançados, como redes neurais generativas adversárias (GANs) e transformadores, para produzir novos dados que são similares aos que foram usados em seu treinamento, mas sem replicá-los exatamente.
Por exemplo, em geradores de texto, como o GPT, a IA pode criar textos coerentes em diferentes estilos e contextos, utilizando padrões aprendidos de um grande conjunto de textos. Da mesma forma, em geradores de imagens, redes como GANs podem criar imagens realistas de pessoas, objetos ou cenas que nunca existiram de fato.
Em essência, a IA generativa é uma forma de Inteligência Artificial que não apenas interpreta o mundo, mas também tem a capacidade de criar novas expressões e interpretações baseadas nos dados que analisa. No entanto, essa tecnologia também levanta desafios éticos, como o uso potencial para criar deepfakes ou conteúdo enganoso, além de questões sobre direitos autorais, já que essas IA’s são treinadas em obras criadas por humanos. Mas como diferenciar uma obra criada por um humano de uma criada por uma máquina?
Teste de Turing
O Teste de Turing, proposto pelo matemático e cientista da computação britânico Alan Turing, em 1950, é uma medida para determinar a capacidade de uma máquina em exibir comportamento inteligente equivalente ou indistinguível do comportamento humano. Turing, em seu artigo seminal “Computing Machinery and Intelligence“, introduziu o teste como uma forma de abordar a questão filosófica: “As máquinas podem pensar?”. Ele sugeriu que, ao invés de tentar definir diretamente o conceito de pensamento, seria mais prático testar se uma máquina pode imitar o comportamento humano de maneira convincente.
O teste em si envolve três participantes: um humano (o juiz), uma máquina e outro humano. O juiz interage com ambos os participantes através de uma interface de comunicação, geralmente um terminal de texto, sem saber qual é a máquina e qual é o humano. O objetivo do juiz é fazer perguntas a ambos os participantes para determinar qual deles é a máquina. Se ele não conseguir distinguir consistentemente a máquina do humano após uma série de interações, a máquina é considerada como tendo passado no Teste de Turing.
Se você assistiu a primeira versão do filme Blade Runner do diretor Ridley Scott, com o Harrison Ford como protagonista, vai lembrar que numa das primeiras cenas, vemos o que se parece muito com o Teste de Turing tentando descobrir se aquele indivíduo era ou não um replicante, como eram chamados os andróides.
Não há um conjunto fixo de “perguntas do Teste de Turing”. O juiz pode fazer qualquer tipo de pergunta, abrangendo temas que vão desde assuntos pessoais e culturais até perguntas abstratas e lógicas. A ideia é que, quanto mais diversificados e contextuais forem os questionamentos, mais desafiador será para a máquina imitar o pensamento humano. Por exemplo:
Perguntas sobre emoções e subjetividade: Para avaliar se a máquina compreende e simula emoções e experiências humanas.
– “Como você se sentiria se perdesse um ente querido?”
– “O que você acha de ouvir música em um dia chuvoso?”
Perguntas sobre experiências sensoriais ou físicas: Dado que máquinas não têm sensações físicas, perguntas que impliquem experiência sensorial podem ser reveladoras.
– “Descreva o gosto de uma laranja.”
– “Qual é a sensação de tocar areia?”
Perguntas de conhecimento geral e lógica: Para verificar se a máquina possui o conhecimento contextual necessário e a habilidade de argumentar como um humano.
– “Por que a água ferve mais rapidamente em maiores altitudes?”
– “Se todos os corvos são pretos e esta ave é preta, ela é necessariamente um corvo?”
Perguntas sobre a cultura e contexto humano: As máquinas podem ter dados culturais, mas são incapazes de viver a cultura. Perguntas sobre experiências culturais subjetivas podem diferenciar um humano.
– “Como você se sentiria ao visitar a cidade onde cresceu?”
– “Qual é a sua lembrança mais antiga sobre o Natal?”
Perguntas abstratas ou filosóficas: Questões sobre temas complexos, sem respostas definitivas, podem ajudar a expor a diferença entre um humano e uma máquina.
– “O que você acha que acontece após a morte?”
– “Você acredita que a inteligência deve sempre ser limitada pela moralidade?”
Desde sua concepção, tem sido um ponto de referência e um desafio para o desenvolvimento da IA. Embora várias máquinas tenham sido projetadas para passar no teste, a questão sobre o que realmente significa “pensar” continua a ser um debate filosófico. Críticos do teste argumentam que passar no Teste de Turing não implica necessariamente que uma máquina tenha compreensão ou consciência; ela pode estar simplesmente manipulando símbolos de maneira sofisticada sem qualquer entendimento genuíno, uma crítica levantada por filósofos como John Searle em seu experimento mental do “Quarto Chinês” que vou detalhar mais adiante.
Na prática, o Teste de Turing foi uma das primeiras tentativas de formalizar a avaliação da Inteligência Artificial, e embora seja uma ferramenta limitada e sujeita a críticas, ele permanece como um dos principais marcos na discussão sobre o avanço da IA e sua capacidade de simular cognição humana.
Ergo sum cogito
A IA trabalha claramente dentro de uma lógica cartesiana, ou seja, ela segue um sistema de pensamento baseado nos princípios e métodos estabelecidos pelo filósofo e matemático francês René Descartes, que se fundamenta na crença de que o conhecimento verdadeiro pode ser alcançado por meio da razão e do método rigoroso e analítico.
No centro da lógica cartesiana está o racionalismo: o verdadeiro conhecimento vem da razão, não dos sentidos, que são falíveis. Para Descartes, o raciocínio lógico e matemático é o caminho mais confiável para entender a realidade, oferecendo clareza e certeza que percepções sensoriais não conseguem fornecer.
A lógica cartesiana foi, sem dúvida, essencial para o desenvolvimento do pensamento científico e matemático moderno, influenciando a metodologia científica ao valorizar a análise e a razão. No entanto, suas limitações se revelam em campos que envolvem o conhecimento subjetivo, intuitivo e emocional – aspectos cruciais em áreas como arte, moralidade e nas próprias interações humanas. Aqui, vemos o ponto em que a IA se depara com um obstáculo cognitivo até o momento intransponível.
Vamos lembrar que foi justamente Descartes quem cunhou a famosa frase “Penso, logo existo”. E se a IA basicamente opera sob a lógica cartesiana, isso então lhe confere base para reivindicar um lugar no grupo de seres existentes? Quer dizer, existir, ela obviamente existe. A questão é se a forma como opera pode ser considerado “pensamento” e em caso afirmativo, ela terá consciência do que é existir ou não. E aí, Descartes?
LEIA NA PRÓXIMA PARTE
– Watson da IBM
MENTE, ALMA E CORPO
– Uma discussão filosófica
– Alma do negócio
– Alma vs algoritmo
– Deixando de lado a discussão filosófica/tecnológica
– A dor na alma como impulso criativo
– Consciência artificial