saco cheio

Estou de saco cheio da criatividade dos canalhas

Estou de saco cheio de ver ideias brilhantes servindo a estruturas podres. Estou de saco cheio de ver a criatividade sendo usada para o benefício de poucos e a desgraça de muitos. A criatividade virou a arma branca da elite cognitiva, afiada na ponta do privilégio e banhada no sangue simbólico de quem sequer tem acesso ao próprio tempo mental. Não falta criatividade no mundo. Falta vergonha. Falta freio. Falta lucidez moral. Nâo suporto mais ver o talento sendo prostituído pelo lucro, a engenhosidade sequestrada por quem já tem demais, e a imaginação reduzida a ferramenta de entretenimento anestésico.

Estou de saco cheio de ver grandes corporações celebrando inovação enquanto destroem tudo o que não dá retorno imediato. Bancos que vendem “propósito”. Empresas de petróleo que pintam arco-íris em logotipo. Multinacionais que financiam genocídios ambientais e depois criam campanhas emocionantes com crianças sorrindo e hashtags sobre futuro. Não suporto mais essas ESGs de fachada, de “impacto social” terceirizado, de discurso sustentável recortado por equipe de branding. Tudo isso é criatividade. Tudo isso é falso. Tudo isso é crime simbólico — e, às vezes, literal.

Estou de saco cheio de bilionários que se acham gênios criativos e seus foguetes fálicos enquanto gente com os pés no chão morre de fome. Saco cheio dos que criam algoritmos que exploram o vício humano. Um teatro cósmico de vaidade, um espelho doentio da desigualdade, um império de dados capturados sem consentimento. Estou de saco cheio dessa lógica onde a criatividade é premiada apenas quando serve ao ego hipertrofiado de quem já colonizou o planeta.

A ignorância não é mais passiva. É agressiva. Assertiva. Criativa. Estou de saco cheio de ver energúmenos tecnológicos criando conteúdos virais, moldando opinião pública, definindo o debate com memes maliciosos e slogans repetidos até virarem doutrina. A burrice ganhou agência criativa. E pior: está melhor equipada do que nunca.

Estou de saco cheio de ver a criatividade servindo para justificar o injustificável. Guerras planejadas como campanhas de marketing. Genocídios travestidos de operações cirúrgicas. Limpezas étnicas coreografadas com vocabulário técnico, com siglas frias e mapas coloridos que ocultam o cheiro de sangue. Refugiados tratados como raça inferior, como falhas logísticas no sistema, como se a desumanização pudesse ser resolvida com uma boa identidade visual da ONU. A crueldade contemporânea é criativa. Ela sabe se disfarçar. Ela sabe usar a linguagem, os símbolos, os dados. Ela sabe contar histórias. E estou de saco cheio de ver essa criatividade sendo admirada por sua eficiência, quando o que ela entrega é miséria roteirizada, extermínio estratégico e exclusão com verniz de governança.

E estou de saco cheio da criatividade travestida de gestão econômica, dessa máquina cínica que transforma sofrimento em métrica. Multinacionais explorando mão de obra barata em países periféricos enquanto estampam seus relatórios de sustentabilidade com gráficos coloridos e depoimentos “inspiradores”. A escravidão do século XXI é altamente criativa, globalizada, legalizada, lucrativa. Estou de saco cheio da bolsa de valores determinando o destino da sociedade como se fosse oráculo. Não produz nada. Não distribui nada. Só especula, drena, seleciona quem vive e quem morre. Estou de saco cheio do deus mercado, essa ficção monstruosa que decide políticas públicas, sufoca direitos sociais e dita o valor da vida com a frieza de um gráfico. Tudo isso com criatividade. Tudo isso com storytelling. Tudo isso com prêmio de inovação.

Veja a história. Adolf Hitler foi um dos criativos mais eficazes do século XX. Inventou um país que não existia, uma raça que nunca existiu, uma narrativa simbólica sedutora, visualmente impactante e emocionalmente eficiente. Nada disso teria funcionado se ele não fosse um gênio criativo doentio. Steve Bannon entendeu isso. Criou realidades paralelas com dados psicométricos, inventando microuniversos sob medida pra cada cidadão vulnerável. Com a ajuda da Cambridge Analytica, fez do Big Data uma máquina de fabricar ficções políticas com aparência de destino. Que ideia genial! E quem se beneficiou disso? Donald Trump, o personagem mais bem roteirizado da política recente: grotesco, carismático, tosco com método, imprevisível com cálculo, um anti-herói de storyboard. Estou de saco cheio de ver esse tipo de mente sendo aplaudida por sua “autenticidade”, quando o que ela representa é a criatividade sequestrada pela lógica da destruição lucrativa.

E não, não é exclusividade da extrema-direita. A esquerda também adora empacotar utopias inócuas com slogans pasteurizados, campanhas emocionantes e soluções que evitam cuidadosamente qualquer confronto real com as estruturas que nos esmagam. Estou de saco cheio de ver boas ideias sendo domesticadas para caber em PowerPoints de consultoria e em pitchs de inovação social que deixam tudo como está — só que com lettering moderno.

Estou de saco cheio de ver mentes geniais trabalhando para aumentar o tempo de retenção em plataformas que viciam crianças. De ver criativos premiados por fazer campanhas que vendem cigarros disfarçados de lifestyle ou fintechs travestidas de libertação. Estou de saco cheio de ver o storytelling ser usado para encobrir violência, apagamento, saque de território, usurpação de memória. Criatividade não limpa sangue. Às vezes espalha.

Estou de saco cheio de ver a criatividade a serviço da morte e do sofrimento alheio. No design de armamentos, nos aplicativos que viciam crianças, nas técnicas de neuromarketing que transformam desejo em compulsão, nas embalagens verdes de produtos devastadores. Estamos cercados por um espetáculo de engenhosidade a serviço do pior. E chamamos isso de progresso. Não suporto mais ver gente aplaudindo soluções criativas para problemas criados por outras soluções criativas. Como se reciclar canudo fosse redenção depois de empacotar o planeta inteiro em plástico.

Estou de saco muito cheio de ver gente provocando incêndio pra depois pagar de bombeiro. De fanáticos religiosos que fazem leituras criativas da Bíblia e outros livros sagrados para justificar preconceito, racismo e violência, e ainda por cima querendo impor sua visão de mundo para o resto da sociedade. De saco cheio de gente que a única coisa que tem na cabeça é merda que usa para destilar ódio nas redes sociais.

Estou de saco cheio da ideia de que a criatividade é sempre positiva. Não é. Ela é uma potência — mas potência nenhuma é inocente. Ela age no mundo. Produz consequências. Alimenta sistemas. Mantém privilégios ou rompe com eles. E essa escolha, essa curva moral, raramente aparece nos slides.

E é revoltante ver o criativo, hoje, educado para obedecer. Obedecer ao algoritmo, ao mercado, ao cliente, à tendência. A criatividade virou performance previsível. O criativo virou servidor do hype. É premiado quem viraliza, não quem confronta. Estou de saco cheio de ver gente talentosa desperdiçando sua capacidade de ruptura para vender sabonete com discurso de empoderamento ou criar slogan bonitinho pra campanha política de quem se refestela com grandes negociatas. Nada contra sabonetes. Nada contra política como conceito. Tudo contra a rendição silenciosa da potência criativa ao entretenimento de anestesia.

Estou de saco cheio de ver a criatividade sendo tratada como instrumento de marketing quando ela deveria ser uma ferramenta de emancipação cognitiva. De ver o poder criativo sendo reduzido a performance. De ver o talento ser adestrado por planilhas.

O problema não é a criatividade. É o ecossistema que define onde, como e para quê ela pode existir. É a lógica que transforma toda ideia em produto, toda linguagem em marca, todo gesto em oportunidade de engajamento. A criatividade virou moeda simbólica. E estou de saco cheio de pagar caro por ela com a nossa capacidade de indignação real.

Estou de saco cheio da neurociência a serviço da manipulação. A mesma ciência que poderia ajudar o ser humano a superar suas falhas cognitivas mais primitivas — impulsividade, tribalismo, dissonância moral — está sendo usada para descobrir qual cor de botão gera mais cliques, qual cheiro induz mais compra, qual imagem captura mais atenção. A engenharia neural do consumo se tornou mais sofisticada que qualquer projeto de emancipação mental. Ao invés de investigar como pensar melhor, sentir melhor, decidir com mais consciência, há legiões de PhDs dedicados a transformar o cérebro humano em um alvo mais vulnerável para a próxima campanha publicitária. Estou de saco cheio dessa neurociência vendida, travestida de inovação, que não quer melhorar o mundo — quer apenas vendê-lo em parcelas suaves com dopamina garantida.

A criatividade evolutiva está exilada. Está escondida em becos, em zines, em projetos autofinanciados, em vozes que o sistema chama de “radicais” só porque elas ousam pensar fora da bolha. Estou de saco cheio de ver criatividade verdadeira sendo descartada porque ela não vende, não escala, não viraliza. Como se o valor de uma ideia dependesse do número de curtidas que ela arranca de um público entorpecido e infantilizado.

Sim, o mundo precisa de criatividade. Mas não essa. Não a criatividade domesticada, decorativa, autoindulgente. Não a criatividade do design bonito sobre a ferida purulenta. Não a criatividade “empática” que emociona sem denunciar, que engaja sem transformar, que viraliza sem responsabilizar. Não a criatividade a serviço da ganância desmedida e das narrativas hipnotizante e idiotizantes.

Estou de saco cheio de tudo isso. E se você não está, talvez seja hora de se perguntar: em que mundo você vive?

Eu sonho com uma criatividade que desobedece. Que recusa servir à ganância. Que constrói pontes em vez de campanhas. Eu sonho com a coragem estética que não se vende. Eu sonho com o retorno da imaginação ao seu papel mais perigoso: transformar o mundo. Para melhor.

Henrique Szkło
eu@henriqueszklo.com