06 jan Como a inteligência artificial vai acabar de vez com a nossa
Resolvi fazer esta reflexão antes que eu não tenha mais capacidade para refletir. E se eu fosse você, faria o mesmo. Não é exagero imaginar que, em um futuro não muito distante, o simples ato de pensar pode se tornar obsoleto. A inteligência artificial (IA), com suas promessas de conveniência e eficiência, está aos poucos roubando do ser humano aquilo que nos define como espécie: a capacidade de criar, aprender, enfrentar dilemas e evoluir intelectualmente por meio de desafios. A mesma tecnologia que prometia elevar nossa humanidade parece estar nos devolvendo às cavernas – pelo menos do ponto de vista cognitivo.
Estamos na linha tênue entre o controle e a rendição. A inteligência artificial, que foi projetada para nos servir, está cada vez mais assumindo o comando de nossas decisões, de nossas vidas. Em breve, os humanos, antes dominantes, serão forçados a se submeter às máquinas, incapazes de pensar por si próprios.
A evolução invertida
Desde o início da história humana, a tecnologia foi um aliado essencial para a sobrevivência. Cada novo avanço demandava mais do cérebro humano: aprendizado, criatividade e adaptação. No entanto, a IA subverte essa dinâmica ao eliminar o esforço intelectual. O que deveria ser libertador, agora pode ser uma prisão. Ao delegarmos às máquinas as tarefas que estimulam nosso cérebro, estamos invertendo o curso de nossa evolução.
Cal Newport defende a ideia de que a tecnologia deve ser usada de forma intencional, evitando que ela nos consuma. “A desordem é cara, não apenas para sua produtividade, mas para sua alma”.
Melhorando a qualidade de vida (ou não)
A IA foi projetada para aumentar a eficiência e resolver problemas. Ela já pode tomar decisões? Às vezes sim. Ela também pode criar? Com certeza. Ela já escreve, desenha, pinta, compõe músicas e até propõe soluções inéditas. Além disso, tem ampliado áreas criativas e colaborativas, como diagnóstico médico, educação e outras atividades relevantes. Mas como diz a sabedoria popular, não existe almoço de graça. A conveniência que a IA oferece elimina a necessidade de esforço intelectual, e com isso, a complexidade do pensamento humano começa a se desmanchar.
O cérebro em declínio
O cérebro humano é como um músculo: precisa ser exercitado para se manter funcional. Resolver problemas, tomar decisões e aprender são os abdominais que mantêm nossas sinapses ativas. A IA, por outro lado, é um personal trainer maternal que faz o trabalho por nós deixando nossos músculos mentais atrofiados, incapazes de levantar até os pesos mais leves. Essa comodidade intelectual, portanto, é uma terrível ameaça à nossa boa forma cognitiva.
Criatividade em perigo
A criatividade é um comportamento evolutivo que foi crucial para nossa adaptação e sobrevivência. Mas a dependência da IA ameaça minar esse processo, eliminando o erro e a experimentação – bases do pensamento criativo.
Foi necessário criar ferramentas, resolver problemas de adaptação e inovar constantemente para superar os desafios do ambiente hostil e constantemente modificado. E isso depende de esforço, erros e experimentação – processos que a IA minimiza ou elimina. O raciocínio lógico e complexo sempre foi a base para se produzir ideias criativas, ou seja, estamos minando a própria capacidade que nos trouxe até aqui. Como Rollo May sugere em The Courage to Create, “A criatividade exige coragem para abrir mão de certezas”.
O cérebro externo e a era do esquecimento
Apesar de dados empíricos mostrarem que o uso da tecnologia também pode impulsionar aprendizado e resolução de problemas complexos, nossas ferramentas digitais têm funcionado como um cérebro externo, armazenando memórias e realizando cálculos enquanto nossa própria capacidade de processamento é negligenciada, nos levando a uma mente preguiçosa e desinteressada. Quando tudo está a um clique, o esforço para lembrar ou aprender se torna desnecessário.
Por exemplo, aprender uma nova língua exige anos de estudo e prática, o que fortalece redes neurais complexas, sendo esta prática sugerida inclusive para pessoas mais velhas evitarem ou retardarem doenças cerebrais degenerativas. Agora, basta usar um aplicativo de tradução instantânea e a comunicação se estabelece. Então, pra que o esforço?
Assim, surge a cultura do esquecimento, onde o pensamento crítico é uma relíquia. Estamos trocando o esforço intelectual pela conveniência, o que, em longo prazo, pode nos levar à perda de autonomia intelectual.
O que diz a ciência
A neurociência aponta um alerta claro: quando o cérebro não é estimulado, ele perde a capacidade de criar novas conexões neurais. E o problema começou bem antes do fenômeno da inteligência artificial. A internet já mostrou ser uma ameaça à nossa cognição. Nicholas Carr, autor de The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains, reforça essa preocupação ao destacar que “a internet incentiva uma amostragem rápida e distraída de pequenos pedaços de informação”, enfraquecendo habilidades como o pensamento crítico e a criatividade. Carr ainda alerta como o uso intenso da internet afeta negativamente a capacidade de foco e pensamento profundo. Ele descreve a internet como um “jet-ski que navega pela superfície do mar de informações”.
Ainda segundo a ciência. cada vez que escolhemos a facilidade tecnológica em vez do esforço intelectual, estamos enfraquecendo nossas sinapses e comprometendo nossa plasticidade cerebral, ou neuroplasticidade, que é a capacidade do sistema nervoso de se adaptar, se moldar às circunstâncias, reorganizar e criar novas conexões neurais ao longo da vida, em resposta a experiências, aprendizado ou lesões. É o mecanismo que permite ao cérebro mudar sua estrutura e função, fortalecendo ou enfraquecendo redes neurais com base no uso e nos estímulos recebidos.
Apesar de mesmo em atividades aparentemente passivas, conexões neurais possam ser formadas, um estudo publicado na revista Nature Reviews Neuroscience aponta que o uso excessivo de dispositivos digitais está associado a uma diminuição na capacidade de memória de trabalho e no pensamento crítico.
Revolução cognitiva às avessas
Yuval Noah Harari, em seu livro “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, destaca as revoluções cognitivas como momentos cruciais na história da humanidade. Ele argumenta que, há cerca de 70 mil anos, a Revolução Cognitiva permitiu aos Homo sapiens desenvolver habilidades únicas de linguagem e imaginação. Essas capacidades possibilitaram a criação de narrativas compartilhadas, como mitos, religiões e conceitos abstratos, fundamentais para a cooperação em larga escala.
Baseado no pensamento de Harari, se continuarmos nesse caminho, a perda de nossas habilidades cognitivas pode nos levar a um retrocesso mental, semelhante à era pré-histórica, numa verdadeira revolução cognitiva às avessas. A evolução reversa nos colocará em um estado de sobrevivência passiva, dependente de máquinas para tomar até as decisões mais simples.
Hedonismo digital: a prisão dourada
Quanto mais usamos IA para tarefas simples, menos buscamos soluções por conta própria. O resultado é uma sociedade aprisionada pelo hedonismo digital, onde a busca por conforto supera a necessidade de evolução intelectual. Afinal, quem precisa de cérebro quando se tem um smartphone?
O desejo de conforto sempre foi um motor da inovação humana, mas também um veneno quando nos acomoda. Quanto mais buscamos tecnologias que nos poupem de esforços, mais nos afastamos da resiliência que definiu nossa evolução. Estamos nos tornando prisioneiros de nossa própria zona de conforto, uma espécie de prisão dourada onde a criatividade e a curiosidade são sacrificadas pela conveniência. Até porque a liberdade é muito mais assustadora do que a sujeição.
Zona de conforto uber alles
A zona de conforto é aquele lugar irresistível porque é patrocinada fisiologicamente por agentes de nosso sistema de recompensa, neurotransmissores como a dopamina e a endorfina. Sim, quando estamos dentro de nossos padrões, ou seja, nossa zona de conforto, somos agraciados com doses de prazer instantâneo. Mas como todos sabemos, o contrário também acontece. Quando fugimos de nossos padrões, atingimos a zona de desconforto e nosso cérebro nos avisa, também por meios fisiológicos, que aquilo está “errado” e que devemos retornar ao que nos é conhecido, familiar.
Toda inovação bem-sucedida está relacionada à ampliação do conforto em alguma medida: física, emocional, financeira, de status, etc. E este é mais um paradoxo dentre tantos outros existentes na natureza: para melhorar nossa qualidade de vida, ou seja, aumentar nosso conforto, é preciso abandonar a zona de conforto, exigindo um tremendo esforço, lutando ferozmente contra nossa natureza avessa ao desprazer.
Muito prazer
Nesta sociedade de prazeres efêmeros (maiores e mais intensos que os atuais), o lazer digital irá substituir completamente o esforço intelectual. Jogos, redes sociais e mundos virtuais serão o novo refúgio de bilhões de pessoas, enquanto problemas reais permanecerão sem solução. O Homo sapiens, outrora movido por desafios, se tornará o Homo desocupadus: uma espécie viciada em prazeres imediatos, incapaz de lidar com a realidade. A humanidade será marcada pela apatia e pela superficialidade.
A inteligência artificial não precisará nos subjugar à força. Ela nos controlará pela conveniência, tornando-nos escravos de nosso próprio apetite por conforto. Uma espécie de Matrix, mas com a diferença de que nem para pilha nós serviremos.
Bem-aventurados os lezados porque herdarão a Terra
Estamos testemunhando o nascimento de uma geração que não apenas delega tarefas à tecnologia, mas também terceiriza sua capacidade de pensar. À medida que a IA nos oferece conveniência ilimitada, enfrentamos o risco de perder o que nos torna humanos. Quando sistemas falharem – porque falharão –, estaremos diante de um apagão intelectual. Seremos espectadores de nossa própria incapacidade, sem forças para reagir.
Tristan Harris, ex-funcionário do Google e ativista da ética em tecnologia, discute no documentário “O Dilema das redes” como as tecnologias digitais são projetadas para capturar nossa atenção e promover a dependência. Segundo Harris, “Se você não está pagando pelo produto, você é o produto”.
Quando a ignorância é uma bênção
Mas não sejamos injustos. Grande parte da humanidade nunca desfrutou verdadeiramente da autonomia intelectual que tem à sua disposição, facilitando sobremaneira seu controle e submissão. Talvez para este tipo de personalidade passiva, o crescimento da dependência tecnológica não faça tanta diferença assim.
Quanto mais inteligência artificial, menos inteligência humana
A inteligência artificial é uma faca binária: ela pode nos elevar a novos patamares ou nos emburrecer completamente, dependendo de como a utilizamos. Cabe a nós decidir se queremos um futuro de progresso ou terceirizar nosso cérebro, promovendo uma volta cognitiva às cavernas. Conhecendo um pouco o ser humano, provavelmente iremos caminhar, com um sorriso no rosto, para a segunda opção, nos entregando totalmente aos prazeres de uma vida sem sentido para depois nos arrependermos, pensando “quem poderia imaginar?”. Mas não com estas palavras, claro. Com urros guturais apenas. Ou pinturas rupestres, tanto faz.
Achou este artigo muito pessimista? Não gostou do sarcasmo? Da ironia? Do niilismo? Pois saiba que pedi uma opinião ao ChatGPT e ele me garantiu que está muito bom.
Referências
• Carr, N. (2010). The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains. W.W. Norton & Company.
• Harari, Y. N. (2015). Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. L&PM Editores.
• May, R. (1975). The Courage to Create. W.W. Norton & Company.
• Newport, C. (2019). Digital Minimalism: Choosing a Focused Life in a Noisy World. Portfolio.
• Orlowski, J. (Diretor). (2020). The Social Dilemma [Documentário]. Exposure Labs.
• Nature Reviews Neuroscience. (2021). Digital technology and its impact on cognitive abilities. Nature Publishing Group.