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Como a Inteligência Artificial está reinventando o brainstorming

A solidão criativa, aquele fantasma branco disfarçado de papel já não tem mais como assombrar os que nele acreditam e se deixam influenciar. Who you gonna call? Inteligência artificial.

O brainstorming é eminentemente um ritual coletivo: pessoas nem sempre muito a vontade, colando post-its na parede, dando risada e trocando ideias como se fosse um jogo de ping-pong, com a vantagem de que a bola preferencialmente volte maior e mais redonda do que quando foi. Isso quando as pessoas estão imbuídas e focadas no processo e, mais que isso, conhecem o modus operandi. Apenas juntar um monte de gente numa sala esperando que boas ideias surjam como mágica, é como colocar uma vaca numa sala e esperar que dali saia um churrasco. É preciso estar de mente aberta, respeitando todas regras do brainstorming. Sim, criar exige um tipo muito especial de disciplina e estrutura, que não cerceia as ideas, ao contrário, as faz florescer. Uma destas regras e permitir que se fale livremente, respeitando todas as ideias que surgirem, inclusive as supostamente idiotas. Aliás, as idiotas têm mais potencial criativo do que as bonitinhas. Até porque muitas vezes consideramos uma ideia idiota simplesmente porque ela é original, nunca pensada para solucionar aquele problema, o que para nosso sistema nervoso, especialmente o cérebro, é um salto naquele vazio chamado zona de desconforto. Mas esse é o propósito de um brainstorming, não?

O multiverso criativo

É justamente esse choque de universos singulares, essa troca de visões, percepções da realidade, de pensamentos em progressão, evolucionista, transformando-se em tempo real, a olhos vistos, é que faz do brainstorming, além do testemunho do milagre do nascimento de uma ideia, uma das melhores ferramentas de produção de ideias criativas. Uma história antiga explica metaforicamente melhor esta dinâmica. Duas pessoas que vão de encontro uma da outra com uma maçã, ao se encontrarem e trocarem suas maçãs, faz com que cada uma delas vá embora com uma maçã na mão. Duas pessoas que vão de encontro uma da outra com uma ideia, ao se encontrarem, e trocarem suas ideias resulta que cada uma delas deixe o encontro com duas ideias na cabeça.

Apenas esperança

Outra vantagem do brainstorming é que a diversidade também colabora com a avaliação prática das ideias. Por ser um colegiado, é esperado que as melhores sejam democraticamente escolhidas, tendo como critérios a compreensão, a aceitação como potencial solução e, mais que isso, o carisma; aquele tempero que você não sabe explicar mas que carrega uma energia diferente, que de alguma forma nos arrebata, nos encantando e nos provocando uma inexplicável sensação de excitamento. Não deixa de ser uma certa ironia. Muitas ideias que, pela lógica, possuem todas as qualificações para um desempenho de sucesso, ao carecerem de carisma, acabam inevitavelmente fracassando. Por outro lado, ideias que não são necessariamente um primor de lógica e de bom gosto, mas que, por razões amplamente desconhecidas, se conectam com o público de forma inesperada, carregam essa força estranha chamada carisma. Aliás, é isso que faz do processo criativo este cassino tão sedutor. Você sabe todas as regras do pôquer, do blackjack, da roleta, é um exímio e experiente jogador, mas nunca vai ter garantia da vitória. As variáveis são tão numerosas e naturalmente indecifráveis que mesmo as mentes mais brilhantes nem sonham em conhecê-las e, muito menos, consolidá-las. Nem mestres do xadrez conseguem arranhar a superfície de um conjunto de possibilidades próximo do infinito. Sempre digo que na geração de ideias não existe certeza, apenas esperança. E essa esperança se fortalece quando o ser humano é conjugado no plural.

Ah, look at all the lonely people

Portanto fica evidente que quando estamos sozinhos, o trabalho criativo se torna muito mais desafiador. Você não tem interlocução, não tem como expandir o leque de referências além do seu limite pessoal, do discernimento no uso do google ou do talento em criar prompts no chatGPT. Além disso não consegue avaliar um trabalho do qual não tem distanciamento crítico. Por mais competente que você seja em associações, seu olhar é monocórdio, as ideias escalam com mais dificuldade e os saltos conceituais são menores e menos intensos. Mais que isso, as decisões são monocráticas. Você decide sobre o que você mesmo cria. É como avaliar seus próprios filhos, sem o natural apego provocado pelo viés emocional. A frieza e objetividade necessária dificilmente é alcançada neste cenário de solidão. Principalmente quando a ideia é aparentemente original. Quando não há critério para avaliar. Não há visões semelhantes para espelhar. Não há chão para pisar.

Alguém em quem confiar

Para mim, a melhor maneira de lidar com esse cenário muitas vezes desesperador é contar com alguém de confiança para ajuda-lo a avaliar as soluções que você desenvolveu. Confiança na pessoa em si, claro, mas principalmente – e obrigatoriamente – em seu critério e capacidade de abstrair ideias que ainda não estão totalmente prontas, mas que têm potencial, coisa que a maioria das pessoas não familiarizadas com o processo criativotêm dificuldade para realizar. Esta pessoa especial deve ser acionada em dois momentos da jornada: quando você já têm ideias que considera promissoras, mas não tem certeza de qual escolher para desenvolver e, obviamente, quando a ideia já está em sua versão final, prestes a ser apresentada ao seu público-alvo. O ideal é que ela diga com uma razoável segurança “gostei” ou “não gostei”, e, claro, explique o porquê.

Dois é bom

Por isso, tecnicamente, são necessárias pelo menos duas pessoas para se configurar um brainstorming. Quer dizer, eram. Graças à Inteligência Artificial o conceito de brainstorming foi ressignificado. Os dicionários precisarão alterar seus verbetes. Agora existe a alternativa solitária com a formação de uma dupla de criação virtual. Você pode contar tudo o que um parceiro humano oferece, mas com várias vantagens. Vai poder trocar ideias sem nenhum tipo de restrição. Vai ser o líder da dupla, sem nenhuma contestação, ciuminho ou confronto de egos. Será uma dupla uniego. Não vai precisar discutir sobre a qualidade de uma ideia. Vai trabalhar a qualquer hora do dia e da noite, sem cansaço e sem reclamação. Aliás, não vão brigar nunca, como é comum no casais. Mesmo nos casais profissionais. A IA está transformando o monólogo criativo em um diálogo que não termina.

Já pensou poder jogar qualquer pensamento para fora sem aquele medo básico do julgamento alheio? É aqui que a IA brilha. Enquanto você hesitaria em se expressar uma ideia meio estranha com seus colegas, com a IA isso não acontece. Ela aceita tudo. E mais: se você quiser um toque de crítica ou um olhar mais analítico, é só pedir. Mas o grande charme está na liberdade total de compartilhar sem o peso do “o que vão pensar de mim?”.

O importante é que esse processo criativo vire um bate-papo de verdade. Você lança uma ideia, a IA responde com outra perspectiva ou um contraponto que faz você repensar. A cada resposta, por mais inesperada que seja, impulsiona a próxima ideia. Mexe com seus neurônios. Estimula o seu sistema nervoso. E mesmo quando a IA dá um tiro pra cima, longe do alvo, a resposta dela serve como trampolim para novas direções. Eu chamo estes tiros de indutores. Resumindo: você está no meio de um brainstorming.

A diferença é que no brainstorming tradicional, a sensibilidade humana pode ser um obstáculo—ninguém gosta de ver sua ideia sendo detonada na frente de todo mundo. Mas a IA? Ela ouve tudo, responde sem julgamento, e aguenta quantas repetições ou mudanças de assunto você quiser fazer. Isso torna o processo não só mais fluido, mas também muito mais ousado. Neste ambiente seguro, você se sente livre para explorar até as ideias mais fora da caixa. Liberdade que você jamais vai conseguir numa interação humana.

Par quase perfeito

E olha que ironia: apesar de estar conversando com uma máquina, a experiência acaba sendo super-humana. O que importa não é se a IA tem emoções ou entende suas nuances sentimentais, mas sim o fato de ela criar um espaço seguro para você ser completamente honesto com seus pensamentos. E esse espaço de liberdade é essencial para que o brainstorming realmente funcione, permitindo que ideias caóticas possam eventualmente se transformar em soluções brilhantes.

No fim das contas, trabalhar com a IA não é garantia de soluções instantâneas ou perfeitas, mas com certeza promove uma evolução constante das suas ideias. Cada interação, cada resposta inesperada e cada refinamento colaborativo mostram que, quando a criatividade deixa de ser um ato solitário, o potencial para inovação só aumenta.

Então, da próxima vez que o fantasma do papel branco tentar te assombrar, lembre-se: você não está mais sozinho. Com a vantagem de que apenas um dos criadores vai receber todos os créditos pelas ideias. Seu ego vai permanecer intacto. E no caso de a ideia ser mal recebida, você pode abrir o coração e confessar que foi influenciado pela IA, prometendo não cometer esse erro novamente.

Dicas finais

– Esqueça o prompt perfeito. Converse com a IA como se estivesse trocando ideia com um colega, com outra pessoa.

-Amplie suas possibilidades utilizando chats diferentes. Como pessoas, cada um têm visões diferentes para oferecer.

– Peça a todos eles um posicionamento mais crítico, porque o default desse pessoal é puxar o saco e enxergar o lado bom de tudo o que você teclar.

– Para tornar a experiência mais parecida com um brainstorming, converse com o chat por voz.

– Não considere as “opiniões” da IA como verdades. Diferente do amigo confiável humano, ela ainda não têm um critério apurado, baseado nas nuances da percepção humana e tende a ser pasteurizadora de pensamentos e politicamente correto. Para compensar essa falta de sabedoria, use a sua.  

Henrique Szkło
eu@henriqueszklo.com