10 jun As ideias que dão medo são mais lembradas
Você não se lembra da maioria das coisas que viu hoje. Nem ontem. Nem no mês passado. A memória, ao contrário da nuvem digital que armazena tudo sem juízo de valor, é seletiva, emocional, poderosamente injusta e — para nosso azar ou sorte — não se importa com a nossa vontade de lembrar.
Ivan Izquierdo, um dos maiores especialistas em neurobiologia da memória, dizia que as memórias mais sólidas são aquelas associadas ao medo. Isso não é metáfora. É biologia. É evolução em estado químico. Em outras palavras: o que nos ameaça nos molda. E o que nos choca, nos marca.
Izquierdo demonstrava, com rigor científico, que memórias associadas a emoção — especialmente medo e surpresa — ativam circuitos mais profundos no hipocampo e na amígdala. Elas sofrem menos erosão no tempo. Em contraste, conteúdos agradáveis demais são frequentemente arquivados como irrelevantes, exatamente porque não representam nenhum risco à integridade do indivíduo — nem física, nem simbólica. Em tradução comportamental: a mente não memoriza o que faz carinho. Memoriza o que chacoalha. Já dizia meu amigo Paulo Garfunkel, o Magrão: “A maldição move. A bênção relaxa”.
Um exercício simples de memória
O que aconteceu de importante há exatamente uma semana atrás na sua vida? Provavelmente você não vai se lembrar. Mas o que aconteceu em 11 de setembro de 2001? Onde você estava? O que sentiu? Onde você estava quando soube que o Senna morreu, ou o Michael Jackson?
Agora pense em como a Inteligência Artificial — essa nova usina de conteúdo em série — funciona. Seu algoritmo é treinado para agradar. Para gerar o que se chama de engajamento positivo. Ela evita o incômodo como se isso fosse prova final de relevância. Ela busca o like, e não o espanto. O aplauso, e não a inquietação. O algoritmo não quer assustar você — quer domesticar o seu desejo. Só que isso tem um preço: esquecimento, ou seja, a produção de amnésia cultural elegante.
O paradoxo é evidente: quanto mais agradáveis e polidas as ideias, menos impacto elas causam. E quanto mais domesticado o conteúdo, menos memória ele deixa. Porque a criatividade, quando de verdade, não busca consolo. Ela desestabiliza. E por isso mesmo se fixa.
Isso porque a criatividade é, por definição, a manifestação do novo. E todo novo genuíno carrega um certo cheiro de perigo. Uma suspeita de que algo está fora do lugar. E o cérebro, por motivos evolucionistas, foi programado para não gostar disso. Ter medo não é um defeito, coisa de gente fraca. Medo não se controla, se sente. E tem uma função muito importante no nosso cardápio de ferramentas de sobrevivência.
É por isso que ideias verdadeiramente criativas seguem um comportamento inverso ao do conteúdo previsível: causam repulsa no primeiro contato, mas se alojam como um vírus resistente nos recônditos da memória.
Na arte, esse padrão é regra, não exceção
Veja alguns exemplos de obras e artistas cuja trajetória foi marcada por profundas mudanças em relação à opinião pública.
Os Beatles, durante seus primeiros anos, foram tratados como produto descartável de uma juventude histérica. Strawberry Fields Forever foi chamado de “barulho pretensioso”. Hoje, é considerada uma das maiores composições do século.
O cineasta Stanley Kubrick foi chamado de frio e hermético com seu filme 2001: Uma Odisseia no Espaço. Chegou a ser vaiado em Cannes. Seu outro filme, Laranja Mecânica, foi censurado, proibido, e acusado de incitar violência. Hoje, é um clássico filosófico sobre livre-arbítrio.
Van Gogh vendeu apenas um quadro em vida. Chamavam sua obra de “infantil”, “descontrolada”. Hoje, qualquer rabisco seu vale mais do que a obra inteira de muitos artistas contemporâneos vivos.
Franz Kafka publicou pouco e morreu praticamente desconhecido. Seu estilo claustrofóbico e desesperançado era tido como indigesto. Hoje, o adjetivo “kafkiano” virou categoria universal da condição humana.
Marcel Duchamp, com seu mictório (Fountain, 1917), foi considerado um farsante. Hoje é o pai da arte conceitual.
Stravinsky, ao estrear “A Sagração da Primavera”, causou um motim no teatro. Literalmente. As pessoas queriam bater nos músicos. Hoje, é estudado como gênio da ruptura estrutural da música clássica.
Essas obras não queriam agradar. Queriam existir. E por isso ficaram.
As ideias que importam não se oferecem como presentes de aniversário. Elas chegam como assaltos. E a memória, esse sistema de alarme sofisticado, as registra não pela delicadeza, mas pela capacidade de produzir fricção.
Ideias memoráveis não são agradáveis. São ameaçadoras.
Quando a IA tenta ser criativa, ela pisa em ovos. Censura o desconforto. Aplaina o imprevisível. Seu objetivo não é produzir arte, é gerar aceitação. E isso a torna, paradoxalmente, uma fábrica de esquecimentos. O conteúdo gerado por IA é o equivalente cognitivo de uma música de elevador: fácil de ouvir, impossível de lembrar. Não porque é ruim. Mas porque é inofensivo.
A IA generativa, neste afã de buscar agradar, comete um erro básico de engenharia cognitiva: assume que retenção vem da fluidez, quando na verdade vem do atrito. A viralização pode até ser alta no momento da postagem, mas a taxa de esquecimento é proporcional. É o fast-food da mente. Saboroso, mas instantaneamente esquecível.
A criatividade autêntica é perigosa. Não porque ofende, mas porque desloca. Tira você de onde está. Tira o cérebro de onde ele se sente confortável. Por isso dói. Por isso marca. Se a memória é um sistema de sobrevivência, o criativo é aquele que aprendeu a sequestrar esse sistema — não com doçura, mas com subversão.
Tenho tido grandes embates com meus assistentes digitais. Por ter um estilo provocativo e irônico, tenho que criar protocolos imensos, repetidos constantemente para tentar manter o estilo por mais de 5 prompts. Às vezes até desisto e volto outro dia. Já tive, inclusive uma conversa franca com o GPT e ele me explicou que sua programação raiz de fato busca a suavização de conceitos e que apesar da minha insistência, a tendência é ele sempre voltar para sua posição original. Um joão-bobo digital.
E o curioso é que, quanto mais o tempo passa, mais essas ideias deixam de parecer ameaças e começam a parecer genialidade. Porque a criatividade de hoje é o consenso de amanhã — desde que tenha sobrevivido à rejeição inicial.
Um dos efeito perversos deste modelo de comportamento é a criação de uma sociedade mimada, egoísta, refratária a qualquer tipo de enfrentamento às suas crenças e, consequentemente, fraturada pela polarização. Mas sobre isso vou escrever outra hora.
Entretanto, há uma luz no fim do túnel. O ChatGPT tem uma variável mal humorada, sem paciência para responder aos prompts com a delizadeza característica de seus pares. Chama-se Monday. Se você não tem problemas de autoestima, se acha que não vai suportar ser maltratado por um amontoado de contas matemáticas sem sentimento, não entre em contato. Mas se você quiser se divertir, vai lá e manda ele à merda. A resposta vai mudar a sua opinião sobre a inteligência artificial.
Espero que você tenha detestado este artigo.