Conheça o Pedrão

O guarda-costas cerebral que você não sabia que tinha

Quem me conhece sabe que eu adoro uma metáfora para facilitar a explicação e a retenção de conceitos. Então, deixe-me apresentar o Pedrão, a mais bem-sucedida de todas. Sucesso em todas as palestras, cursos e treinamentos ao longo de 20 anos.

Bem, vamos a ele. Imagine um guarda-costas musculoso, exageradamente inflado, arrogante, autoritário, dono de uma lógica impecável que cabe perfeitamente num cartão de visitas: “Se é novo, não presta”. Pedrão é aquele funcionário exemplar que nenhum chefe pediu, mas que não consegue dispensar, pois ele simplesmente não vai embora. Ele é seu piloto automático cognitivo, o responsável pelos pensamentos previsíveis e decisões instantâneas, um protetor brutal da mediocridade confortável que você secretamente chama de segurança.

E não se engane: o Pedrão está na sua cabeça. Todo mundo tem um Pedrão. o digno representante de sua versão mais reacionária. Não há espaço para nuances, sutilezas ou dúvidas existenciais. Ele pensa como quem levanta halteres: preto ou branco, seguro ou arriscado, conhecido ou desconhecido. Se depender dele, você passará a vida no conhecido. Afinal, o desconhecido é onde mora o perigo — e, ainda pior, é onde mora a inovação.

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Pedrão na Arquitetura Neurocriativa™

No Ecossistema Szkło™, Pedrão é personagem-chave dentro da Arquitetura Neurocriativa™, que mapeia o funcionamento automático da mente criativa.

Ele encarna os mecanismos que mantêm você no eixo da sobrevivência mental: baixo risco, baixa energia, zero novidade. O problema é que a criatividade não vive nesse eixo. Ela exige ruptura consciente, que só acontece quando você ativa o pensamento autoinduzido: a habilidade de pensar sobre seus próprios pensamentos — e, principalmente, de questioná-los.

Superego de academia

Se Freud tivesse frequentado academias em vez de salões vienenses, provavelmente teria criado Pedrão antes do superego. Pedrão não deixa de ser uma versão hipertrofiada deste censor mental freudiano, o filtro social interno que regula o comportamento humano. O superego, como Pedrão, é autoritário, imposto, rigoroso e quase sempre alheio aos seus desejos reais. Ambos existem para assegurar a conformidade, um padrão socialmente aprovado, não porque seja bom, mas porque é previsível. A diferença é que Pedrão troca o divã pelo banco de supino e a culpa pelos músculos. É um superego marombado com síndrome de porteiro de balada: bloqueia quem não está “de acordo”.

O Pedrão-Rei

Você acha que Pedrão age sozinho? Não se iluda. Cada indivíduo tem seu “Personal-Pedrão”, mas o verdadeiro perigo é o “Pedrão-Rei”, aquele que mora fora da sua cabeça, o somatório dos padrões coletivos impostos pela sociedade, instituições e cultura. É dele que o seu Pedrão pessoal copia ordens cegamente. A batalha cotidiana não é apenas interna; é um conflito constante entre você, seu Pedrão particular e a versão coletiva, autoritária e intocável que reina no mundo.

Pedrão: uma metáfora das metáforas

Pedrão não é bom nem mau. Ele é apenas meticulosamente dedicado a preservar os padrões que aprendemos, sem julgamento moral. Ele não boicota suas ideias por crueldade ou capricho; pelo contrário, ele apenas cumpre seu papel evolutivo de segurança mental. Afinal, nosso cérebro não consegue processar conscientemente todas as informações ao mesmo tempo. O modo automático, portanto, é vital. Passamos a maior parte das nossas vidas neste estado mental, o que é ótimo para eficiência energética e sobrevivência cotidiana.

O problema surge exatamente no momento da criação, da inovação ou da mudança. É aí que o Pedrão parece um tirano. Mas aqui vai a boa notícia: o Pedrão aprende.

Se você insistir no novo, se repetir o suficiente, se tensionar com coragem, ele recalibra os padrões. Não com entusiasmo, claro. Mas com resignação robótica. Num primeiro momento ele resiste, mas, com insistência ele acaba aceitando. E atualiza o protocolo. Entretanto, muitos acabam esquecendo quem manda, tornando-se escravos involuntários de Pedrão. Ele se manifesta nas vozes internas que dizem: “Não arrisque, fique no seguro” ou “Em time que está ganhando não se mexe”. Essas advertências são o trabalho de Pedrão, necessárias e úteis. Contudo, o detalhe fundamental é este: segurança é um empregado, não o patrão. O problema ocorre quando permitimos que Pedrão tome decisões que deveriam ser nossas.

Pedrão é, portanto, um amigo indispensável, ainda que profundamente incômodo. Seu papel é avisar sobre o perigo. O nosso papel é decidir conscientemente como agir diante dos avisos dele.

Tacos de beisebol da Barbie como revolução metacognitiva

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Há anos, criei um boneco em tamanho natural do Pedrão, encorpado, azul (sim, azul, porque azul é neutro, e Pedrão não aceita críticas culturais). Meus alunos e clientes podiam espancá-lo simbolicamente com um taco cor-de-rosa da Barbie sempre que se sentissem travados ou bloqueados. A ironia do taco infantil e delicado batendo no imenso Pedrão era proposital: uma metáfora visceral e física de como o ridículo pode libertar. Ao confrontar Pedrão assim, os golpes representavam não apenas um ataque ao automatismo, mas uma afirmação de poder sobre o próprio pensamento. Cada pancada não era agressão. Era libertação.

Traumas e a brutalidade do Pedrão

Pedrão administra padrões com disciplina militar, mas ele também pode alterá-los subitamente. Eventos traumáticos são exemplos claros: são como golpes dados com um taco muito maior que o da Barbie. Criam novas regras tão sólidas quanto difíceis de serem questionadas. Um trauma pode transformar Pedrão num carrasco, impondo comportamentos automáticos ainda mais rígidos. Reconhecer a influência dele nesses momentos é essencial para recuperar algum controle metacognitivo.

Você ou Pedrão: quem está no comando?

Negar a existência do Pedrão é inútil, porque ele existe e está aí dentro de você. A solução não é brigar com ele, mas domesticá-lo. Precisamos de Pedrão, sim, mas como um funcionário, como um conselheiro, não como CEO do nosso cérebro. Pensamento autoinduzido é exatamente isso: olhar para Pedrão, reconhecê-lo, ouvir atentamente o que ele tem a dizer e responder com tranquilidade estratégica: “Obrigado pelo conselho, mas dessa vez quem decide sou eu”.

Da próxima vez que você sentir que a criatividade esbarra num paredão interno, lembre-se: talvez seja a hora de pegar o taco da Barbie e lembrar quem realmente está no comando.

Meu nome é Henrique Szkło. Para-cientista da criatividade
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Sempre quis entender como as coisas funcionam. Uma investigação mais séria começou quando abandonei a publicidade, em 2001, movido por uma curiosidade visceral em entender o funcionamento da minha própria mente. O que nasceu como um enfrentamento de uma depressão persistente transformou-se, com o tempo, em um mergulho filosófico e científico nos fundamentos da criatividade humana. Meu método é prático, provocador e metacognitivo, ou seja, está fundamentado na capacidade humana de escolher os próprios pensamentos e de refletir sobre o próprio processo de pensamento e aprendizado. Não se trata de inspiração, mas sim de autonomia criativa. Saiba Mais